Em ano de celebração dos 750 anos da cidade, a Maratona de Amesterdão festejou também o seu 50.º aniversário, numa edição na qual assinalou com pompa e circunstância ambos os números redondos. No geral, a prova holandesa passou com nota elevadíssima no nosso teste. Tem um nível de topo internacional e consideramos que merece claramente a visita, mas também algumas lacunas que precisam de ser revistas.
A feira e o que temos no kit
Fomos à feira da prova na sexta-feira, saindo diretamente do aeroporto para o RAI Amesterdam, um centro de exposições enorme com muito espaço para tudo. Sim, grande, mas não o suficiente. Quer dizer, até era suficiente, mas a organização da feira deixou algo a desejar. Demasiado espaço para expositores, pouco espaço para os protagonistas: os atletas.
À entrada tínhamos cerca de 15 pessoas para nos dar o dorsal. Depois, quem tinha direito a t-shirt (todos os da maratona e mais quem comprou na meia maratona e outras distâncias), tinha uma fila secundária, em forma de caracol, que ia ter a uma outra zona com apenas QUATRO pessoas a atender. Imaginem que 10 mil atletas da meia compraram a t-shirt, juntem os 30 mil da maratona que tinham direito… São 40 mil pessoas para, ao longo de 3 dias, recolher as suas t-shirts em apenas 4 balcões. Terei demorado uma meia hora a recolhê-la, mas soube de casos de quem tinha direito e simplesmente desistiu porque o tempo de espera foi demasiado grande…

E quanto à t-shirt, a espera, no final de contas, valeu muito a pena. Em 53 maratonas que já fiz, esta entra diretamente para o top-3. A cor é vibrante, o design está incrivelmente bem conseguido, com uns detalhes lindíssimos a assinalar o número 50 desta maratona de Amesterdão. Só por isso, a espera de meia hora valeu mesmo a pena!
De resto, com a inscrição é isso mesmo que levamos: dorsal e t-shirt. Nada mais. Nada para criticar, vai cada vez mais tornar-se a regra… Só temos de nos habituar.
Relativamente ao resto da feira, tinha vários expositores – com a Mizuno a ter o maior espaço -, mas sem grandes pontos de interesse. Aqui vai sempre do interesse de cada marca em estar presente, mas não pude deixar de sair desapontado. Passei por todos os espaços de exposição e nenhum me fez parar.
O dia de prova: antes do tiro de partida
A Maratona de Amesterdão destaca-se por muita coisa e a principal, no nosso entender, é o grau de elevado profissionalismo da sua organização. Olhando à escala global, diria que estão bem a par de Nova Iorque, Boston ou Chicago. Tudo bem planeado, tudo bem organizado e com infraestruturas bem distribuídas para que nada falhe – tirando a questão da feira que já referimos atrás.
No dia da prova há várias coisas que se agradecem. Por exemplo, junto do Estádio Olímpico são colocados vários pontos extra para guardar as bicicletas. Algo que por aqui é essencial, pois imensas pessoas já desistiram do carro e é na bicicleta que se movem. Depois, o Estádio está localizado num espaço com outros recintos desportivos, nomeadamente o Sporthallen Zuid, que neste dia serviu de balneários para quem estava a correr a prova. Lá era possível irmos trocar a roupa antes da prova e, depois, trocar e até tomar banho se quiséssemos. Sabíamos de antemão dessa possibilidade, mas como prevíamos muita confusão decidimos não levar as nossas coisas para a troca. Devíamos tê-lo feito, porque apesar de muita gente, nunca chegou a um nível caótico como se podia esperar.
Quanto ao bengaleiro, estava dividido por zonas: uma para quem partia do estádio e outra para quem partia fora. E dentro de cada zona tínhamos setores (creio que de A a M), o que permitia uma distribuição eficaz. Não era pelo número do dorsal, mas antes havia livre vontade de cada corredor: deixávamos a mochila e colavam-nos um sticker no dorsal (com a letra associada e um número). No final, era olhar ao dorsal e ver a letra e o número. Nem 20 segundos demorei para recolher a mochila!
Dali, a entrada no estádio processou-se de forma muitíssimo tranquila. Sem grandes sobressaltos e, lá dentro, sem grande confusão dentro das caixas de partida (separadas por barreiras).
O percurso: plano… mas não planinho
Venderam-nos a ideia de que Amesterdão tinham um perfil mega plano. Mas só nos ocultaram que, apesar de ter efetivamente um perfil muito ‘baixinho’, os pequenos topos (são muitos) são bem capazes de ir partindo as nossas pernas lentamente. É uma espécie de morte lenta que vai acontecendo…
Não nos interpretem mal, a Maratona de Amesterdão é uma prova plana – tem uma diferença entre o ponto mais alto e mais baixo de apenas 3 metros -, mas o problema é que são inúmeras as variações de altitude. E isso, repetido 10 ou 20 vezes, passa a sua fatura. Colocando em comparação com outras provas com perfis planos, diria que Amesterdão surge como 4 estrelas, isto quando Valência, Berlim ou Sevilha ficam com 5 estrelas. Se neste dia o vencedor fez 2:03:30, diríamos que em qualquer uma das três que citámos teria feito provavelmente menos uns 45 segundos.

E depois outro aspeto: dos 12 aos 25 o percurso consegue ser bem chato. E se estiver vento (como esteve neste dia) a missão pode ser bem dura. Tudo porque nessa fase vamos para a zona dos canais junto do Amstel River, num corredor estreito (já lá iremos…) e ficamos completamente expostos à força da mãe natureza. E estando ali num país que se apelida de ‘Baixo’, não será de estranhar que o vento, quando surge, se faça sentir muito. A presença de vegetação ajudaria, mas só a temos a espaços.
Quanto ao tal corredor estreito, esta zona dos canais é feita numa espécie de ciclovia, com espaço para uns 4 a 5 atletas lado a lado. Num dia com um pelotão de 30 mil atletas, mesmo com largadas separadas por alguns minutos – só que não aconteceu… -, quando vamos em grandes grupos torna-se muito complicado sair do emaranhado que se pode formar. Recordo-me de seguir num grupo e ter parado por alguns segundos para tratar de uma ‘urgência’ e, assim que voltei, vi-me totalmente bloqueado no meio de um grupo enorme e ter de pedir licença para passar mil e uma vezes…

De resto, outro ponto que não agradou muito, por conta da confusão associada, foi a saída do estádio. Sim, arrancar uma maratona num estádio é algo incrível. Mas também perigoso. Especialmente quando a saída é estreita e sucede ao cabo de uns 150 metros. Conclusão: quando ia mesmo a sair, a passar pela porta da Maratona, vi uma atleta cair à minha frente por ter tropeçado. Não sabemos se será solução, mas pelo menos podia precaver esse momento uma largada mais desfasada entre cada uma das ondas. Sim, a ideia no papel era que houvesse 3 minutos entre cada uma delas, mas mesmo estando na segunda onda nem 30 segundos depois do tiro de partida já tinha cruzado a linha de partida. Esses 3 minutos teriam feito uma grande diferença!
Quanto ao resto, nada a apontar. O percurso é incrivelmente turístico e passa por vários pontos de grande interesse. Um dos mais emblemáticos surge logo no início, no Rijksmuseum, com uma passagem pelo túnel que divide o centro da cidade e da parte Sul. Mas é mais do que isso. Ali temos direito a uma banda sinfónica a tocar, perto de um espaço com uma riqueza cultural imensa – é ali que estão exibidas obras de arte de Rembrandt, Van Gogh ou Vermeer.
Relativamente às condições globais do traçado, o asfalto é praticamente sempre de boa qualidade, havendo umas raras incursões em zonas de empedrado (nada de especial). No percurso temos os abastecimentos sempre bem sinalizados, mas diria que podiam ser colocados em ambos os lados em determinados pontos e ser um nadinha mais longos. Ainda assim, tendo em consideração a quantidade (eram 12), aqui a nota tem de ser bastante positiva.
Aqui no capítulo dos abastecimentos de referir que dois tinham geis da Maurten e oito com bebida da mesma marca – com exceção do dos 31k, sempre no mesmo ponto em que tínhamos água. Em 5 tínhamos esponjas (que neste dia não fizeram grande falta) e em 7 bananas. Mais do que suficiente, no fundo.
Ambiente de festa
Aqui a nota tem de ser muito elevada. Até mesmo naquela zona dos canais, dos 12 aos 25. Sim, temos alguns momentos de silêncio, mas até agradecemos, porque por vezes sabe bem ter um pequeno instante de reflexão com os nossos pensamentos. Mas mesmo aí temos alguns pontos de imenso apoio, maioritariamente de pessoas que estariam ali a acompanhar outros atletas.
Voltando ao centro, para lá da tal passagem pelo Rijksmuseum, com direito a banda de música e tudo, ao longo do restante temos quase sempre um apoio popular que se agradece. Por exemplo, naquela fase final, dos 35 em diante, onde dói tudo e mais alguma coisa, são as gentes de Amesterdão (e quem estava ali de passagem) que nos leva rumo à meta. Pode doer (e doeu!) mas a verdade é que temos sempre um empurrãozinho extra que os ajuda.

E, depois, a chegada ao estádio. O ambiente naquele ponto é de festa, tanto por parte da organização, com música, mas também por parte de quem estava nas bancadas a ver-nos chegar. Naquele momento sentimo-nos quase como uns atletas olímpicos, à imagem daqueles que, em 1928, disputaram os Jogos Olímpicos neste palco. Foi há quase 100 anos e deu para sentir muito bem o peso daquele local.
E, já agora, um enorme aplauso à cidade de Amesterdão pela forma como o manteve num estado impecável, modernizando-o sem nunca perder o toque histórico. Aqui vê-se a diferença na cultura desportiva dos países…

E após cruzar a meta?
Passado o momento de êxtase de cruzar a meta ao cabo de 42 quilómetros e 195 metros, ainda para mais num local emblemático como o Estádio Olímpico de Amesterdão, o que podemos esperar?
- Medalha de prova ao cabo de 100 metros;
- Manta térmica, que neste dia deu muito jeito;
- Bebedouros para molhar e hidratar
- Após sair do estádio é-nos entregue uma água, uma banana e uma barra a Maurten;
Em suma, o que gostamos?
- Organização do bengaleiro e toda a estrutura prévia à prova;
- O ambiente de festa ao longo de praticamente todo o percurso;
- A t-shirt da prova. Que coisa linda!
- A medalha, num formato habitual aqui em Amesterdão, mas com um design muitíssimo bem conseguido;
E o que não gostamos?
- A saída do estádio pode ser algo confusa e perigosa;
- Não há muito a fazer, mas a parte dos canais é chata e pode gerar muito congestionamento;
- A expo pareceu pobrezinha e a logística de entrega das t-shirts tem de ser melhorada;
| Percurso | Rápido |
| Logística | 9/10 |
| Ambiente | 9/10 |
| Preços | 140€ (42k) 42.50€ (21k) 22.50€ (7.5k) |
| Data em 2026 | 25 de outubro (inscrições abrem a 20 de dezembro) |
| Bengaleiro | Sim |
| Blocos de partida | Sim |
| T-shirt gratuita | Sim (para os inscritos na maratona) |
| Balneários | Sim |
| Potencial para recorde pessoal | Sim |
| Distâncias adicionais | Provas de crianças TCS 7.5K Mizuno Half Marathon |
Um plano ideal para uma viagem em família
Amesterdão é uma cidade recheada de história e pontos de interesse. A visita à Casa de Anne Frank é quase um ponto obrigatório da agenda, mas também o é um passeio totalmente descontraído, por vezes sem rumo, para ver aquelas casas de arquitetura algo inusitada, com edifícios tortos e estreitos.
Na cultura, é também impossível passar sem ir ao Rijksmuseum, o tal museu que cruzámos na maratona. E, para sermos verdadeiros holandeses por um dia, nada melhor do que andar de bicicleta e viver o ritmo desenfreado da cidade em duas rodas. Acreditem… é uma aventura e tanto!
E, claro, vaguear ao lado dos inúmeros canais, com paragem estratégicas para hidratar ou comer (falaremos isso mais abaixo).
No final de contas, Amesterdão é sempre um bom plano até para uma viagem familiar. Se for para correr a maratona, o facto de ter ‘meia’ e prova de 7.5k e ainda corridas de crianças, então o plano é perfeito.

Recomendamos?
Absolutamente!
Dicas finais
Como chegar
Temos a sorte de ter voos diários a partir de Portugal. Para quem está de Lisboa, até há um voo madrugador no sábado, permitindo voar no dia prévio à prova e chegar a Amesterdão ao meio dia. Com tempo para recolher dorsal e ainda relaxar umas horinhas. Não o recomendo, mas para quem não tiver outra chance… é uma boa opção.
Do Porto a opção tardia é ainda melhor. O voo sai pelas 6 da manhã e antes das 10h estamos em Amesterdão. Com tempo até para tomar o pequeno almoço… quase! Tal como no caso da capital, da Invicta temos voos a TAP, KLM e Transavia, pelo que a oferta até é bastante alargada.
Chegados ao aeroporto, é tudo também muito fácil. Temos um comboio direto que nos coloca no centro (ou na feira da prova) em pouco mais de 10 minutos (o Sprinter ou o Intercity, que custa cerca de 3€).
Onde ficar
Começa a ser um dos grandes problemas destas grandes provas. A dificuldade para encontrar alojamento em boa localização a preços acessíveis. A Holanda já não é barata por si só, mas a febre do running fez os preços disparar nesta altura, especialmente porque os locais mais baratos esgotaram num ápice. Procurámos hotel a meio ano da prova e as opções eram poucas e muito caras. Optámos por ficar num hotel próximo do aeroporto. Não podemos dizer que foi uma opção perfeita, mas não foi má de todo. Tínhamos um shuttle direto que nos colocava no aeroporto em 15 minutos e dali, no Sprinter ou Intercity, estávamos no centro da cidade em 10 minutos. Sim, perdíamos uns 30 a 40 minutos nestas voltinhas, mas mais prático do que os preços elevadíssimos do centro. Ou então podíamos alugar uma bicicleta por 12 euros por 4 horas e ter a experiência holandesa completa.
Aqui no tema do hotel deixamos uma dica: reservem com cancelamento gratuito e, antes de chegar ao final o limite para fazê-lo, vejam que opções têm disponíveis noutros hotéis. Isto porque é cada vez mais comum haver pessoas que cancelam as suas reservas no centro em cima da hora. Para terem noção, soubemos de vários quartos livres no Olympic Hotel – logo ao lado do estádio -, abaixo de 100 euros por noite!
O que comer e onde
A Holanda não é propriamente conhecida pela sua gastronomia. Pelo menos não em termos de comida propriamente dita. Sim, tem as suas coisas típicas, mas praticamente tudo fast food. Nada contra, mas… nada de palpitante. As batatas fritas, a stroopwaffle, as panquecas ou os bitterballen (uma espécie de croquetes) são uma excelente forma de recuperar de uma maratona. Aqui todas as calorias são bem-vindas 🙂
No nosso caso, partilhando o nosso roteiro, fizemos o nosso almoço pré-prova num restaurante italiano próximo do Estádio Olímpico. A comida era boa, mas o valor também foi algo puxado. No pós prova decidimos fazer um mix de batatas fritas (qualquer banca as serve muitobem), um bem guloso rolo de canela com pistacchio (BunBun) e ainda uma boa carninha regada com uma Heineken num restaurante de grelhados (a proteína faz falta!).
No dia seguinte, fomos almoçar a uma pizzaria tradicional (La Zoccola del Pacioccone), não falhámos as stroopwaffle (comprámos no Albert Cuyp Market), nem as panquecas, mas deixamos as bitterballen para depois. E se querem seguir na onda dos influencers, aconselho a darem um saltinho à pastelaria Lourens e ao CHUN. Neste último há sempre uma bela fila… mas vale bem a pena!







