Podgorica Millennium Run: um começo grandioso para um desfecho tão deprimente

Quando embarcamos na aventura rumo à capital do Montenegro, não estávamos propriamente à espera de uma super maratona, uma organização de topo e condições de enorme qualidade. Mas também não estávamos à espera de uma prova que nos mostrou, muito claramente, que por vezes o melhor é não organizar maratonas só para dizer que temos uma maratona. É, no fundo, o problema do running/atletismo atual. Todos querem uma fatia do bolo. Não importa o sabor que chegará à boca dos corredores…

No Montenegro, na chamada ‘Podgorica Millennium Run’, temos uma espécie de buffet livre. Todas as distâncias, dos 5 aos 42 quilómetros; todas (à exceção dos 5 quilómetros) a partir ao mesmo tempo. Isso é desde logo uma grande confusão. Mas, no caso, até foi bom para organização disfarçar o reduzido número de atletas que tinha à partida. Para terem noção, em quatro distâncias, pouco mais de 1.500 corredores concluíram os seus desafios, um terço deles nos 5 quilómetros. A maratona, por exemplo, teve pouco menos de 150 concluintes. Ter uma maratona só para dizer que tem…?

Como dissemos, esse é o problema do atletismo/running atual. Não só na Europa, como em todo o mundo. Da China, por exemplo, uma semana antes desta nossa prova em Podgorica, vieram notícias de centenas de maratonas canceladas, precisamente por conta do excesso de provas e escassez de qualidade na realização das mesmas. E se por um lado uma maratona lotada (como Amesterdão) não é propriamente a melhor experiência, uma deserta (como Podgorica) também não. Nem é 8, nem 80. Tem de haver meio termo.

Em Podgorica, fazendo uma análise crua, a frio, diríamos que mais vale ficarem-se apenas pelos 21 quilómetros e concentrarem-se em potenciar a qualidade do evento. Ao invés de fazer algo sofrível. Especialmente sofrível, já agora, para os corredores. Aqueles que pagam para correr em estradas que deviam estar fechadas para si (já lá iremos…). E que pagaram bem. 55 euros, um preço bem próximo do que pagamos em Sevilha por um maratona de topo mundial…

O começo da aventura: a recolha do dorsal

Tivemos um pequeno vislumbre do cariz modesto desta prova quando fomos levantar o nosso kit de prova. Não era em nenhuma feira de exposições (nem sabemos se Podgorica a tem…), mas antes numa modesta salinha no Hard Rock Cafe. Não que para nós seja algo crítico, porque já não temos propriamente grande paciência para mega feiras em que temos uma mão cheia de nada. Mas, ao estar ali, podia haver algo diferente, que não apenas uma banca para a recolha dos dorsais, uma espécie de pórtico para tirar uma foto, uma pequena (bem pequena!) banca com geis e afins à venda e ainda um palco com um painel com o nome dos inscritos. Sendo ali, por exemplo, por que não haver, sei lá, uma bebida de oferta, para fazer as pessoas ficarem ali um pouco mais? Apenas uma ideia, mas lá está… nada de muito crítico. Mas teria marcado pontos se fosse algo de diferente.

Quanto ao kit de prova, nada de mais, mas também já estamos habituados. O dorsal, alfinetes e uma embalagem de uma qualquer bebida energética. Nada mais. Outra vez: se se queriam destacar, podiam ter-se esforçado em algo diferente. Até porque eram pouco mais de dois mil corredores inscritos…

O dia da prova

Outro ponto que não nos agradou particularmente foi o facto da prova começar apenas às 10 horas. Num país que às 16:30 já começa a escurecer nesta altura do ano – e onde o dia nasce por volta das 6:30 -, seria bem mais interessante começar a prova algo mais cedo. Não só para escapar ao potencial pico do calor (que por aqui pode ser ainda algum mesmo em novembro), mas também para permitir aos visitantes desfrutar um pouco da cidade no pós prova. Quem fizer, imaginemos, quatro horas de prova, dificilmente terá tempo para caminhar pela cidade com a luz do dia. Mas, vá, isto é só um pormenor.

Chegados à zona de partida, na emblemática Millennium Bridge, acabámos por ter logo ali pequeno vislumbre do que teremos em diante. O pelotão é reduzido, a estrutura modesta, mas esforçada. E isso é preciso reconhecer-se. Há empenho para tornar a experiência em algo positivo para os corredores. E até acreditamos que para a meia maratona e 10 quilómetros a tenha sido. Para os maratonistas, não.

Um arranque sempre espectacular

É uma das imagens de marca da prova e com razão. O início é efetivamente algo impactante. Tanto do ponto de vista visual, da foto que fica sempre para a memória, como também de quem está lá dentro. Aproveitando o cenário de beleza natural que envolve a ponte Millenium, a organização dispara sempre um fogo de artifício colorido, que dá efetivamente uma cor diferente a uma manhã que, depois disso, é de um tom bem cinzento. Um pouco como o clima deste dia…

Quando arrancámos, no meio daquele milhar e meio de corredores, tudo corre bastante bem. A pouco e pouco, o pelotão dispersa-se, mas nunca ao ponto de ficarmos a solo. Aqui ainda se agradece o facto de haver uma meia maratona a acontecer ao mesmo tempo. O problema vem depois. Aos 20 e qualquer coisa, dada a primeira volta a um percurso que já vinha sendo bem chato, os maratonistas viram para a direita e vão rumo à sua solidão até à meta. Os dos 21k voltam à esquerda rumo à meta.

Para quem vai dar duas voltas, a segunda volta é quase uma marcha fúnebre. Praticamente sempre a solo a correr. Sem apoio nas ruas. De populares ou de grupos de animação. Aqui valem-nos os voluntários, alguns deles bastante entusiastas. Outros, infelizmente, muito mal preparados, a ponto de quase termos de pedir licença para esticarem os braços para nos darem os copos de água.

Quando ainda iam todas as provas juntas

Nesta segunda volta, contudo, o maior problema foi outro. Com o relógio a aproximar-se já no meio dia, as estradas começaram a ter mais trânsito e isso obrigava a um maior cuidado no controlo por parte da polícia. Contudo, não foi bem isso que aconteceu. Em determinado momento, mais me senti no meio de um treino. A ter de ir para o passeio, sob pena de ser atropelado ou incomodado por quem tentava circular. Num cruzamento, recordo-me, um veículo atravessou a estrada sem me deixar passar e tive ali de travar a fundo para não ser levado pelos ares (menos mal que já ia mais devagar!). No meio disto tudo, até as marcações da estrada se tornavam difíceis de entender. Enfim, uma grande confusão.

E não entendam isto como uma embirração por serem duas voltas. Em abril fizemos a Maratona de Bratislava, também com duas voltas, e o nível de cuidado neste particular, foi bem distinto. E num dia em que uma tempestade obrigou a organização a tirar algumas das barreiras e proteções em prol da segurança dos atletas. Em Podgorica… nada disso vimos.

E isso leva-nos de novo ao que dissemos no início: mais vale organizar uma boa meia maratona, do que uma maratona medíocre.

E o percurso, como é?

Já dissemos que são duas voltas, o que à partida pode ser algo chato. Não obrigatoriamente, como vimos em Bratislava, mas é óbvio que é menos aborrecido quando é de outra forma. De resto, o percurso desta maratona é relativamente plano, apenas com uma pequena inclinação que, na verdade, pouco se sente. Temos na fase final de cada volta uma passagem pelo centro da cidade, onde teremos muito provavelmente os momentos de maior apoio, quando passamos junto de algumas esplanadas. Ali, admitimos, ter um pequeno boost de energia ajudou-nos a chegar ao final com um sorriso no rosto.

E após cruzar a meta?

Assim que cruzamos a meta, ao terminar perto das 3:30, estamos completamente isolados. Temos a atenção toda para nós, mas o ambiente muito modesto. Como coloquei a bandeira portuguesa às costas, o speaker fez questão de dizer que era um português, disse o meu nome e nada mais que isso. Assim que cruzei a meta, recebi:

  • Medalha de prova praticamente a seguir à meta;
  • Água, bebida isotónica e bananas;
  • Nada mais…
A medalha é bonita, sim senhor!

Em suma, o que gostamos?

  • O início da prova, com o fogo de artifício colorido na ponte, foi certamente o ponto alto;
  • A t-shirt da prova, com um design agradável e um tecido de boa qualidade;
  • A medalha. Apesar de ser igual para todas as distâncias…

E o que não gostamos?

  • A falta de ambiente no global do percurso. Nem mesmo serem duas voltas ajudou…
  • Uma recolha do kit sem grande ponto diferenciador. Muito fraco;
  • Na segunda volta da maratona, mesmo indo a ritmo abaixo das 3:20, chegámos ao ponto de ter de parar porque havia carros a atravessar a estrada;
  • Falta de preparação de alguns dos voluntários;
  • Marcas dos quilómetros de 5 em 5 quilómetros… e muito mal colocadas na segunda volta.
PercursoDuas voltas, pouco interessante
Logística6/10
Ambiente3/10
Preços45€ a 69€ (42k)
30€ a 55€ (21k)
25€ a 35€ (10k)
15€ a 25€ (5k)
Data em 2026por definir
BengaleiroSim
Blocos de partidaNão
T-shirt gratuitaSim
BalneáriosN/A
Potencial para recorde pessoalNão
Distâncias adicionaisNão
Recomendamos?

Não…

Dicas finais

Moeda e comunicações

Adicionamos este ponto para referir algo importante. Primeiro, no Montenegro a moeda é o Euro. Não, o país não faz parte da União Europeia, nem tão pouco do espaço Schengen, mas usa a ‘nossa’ moeda. Curiosamente sem ter autorização oficial para tal. Na verdade, nem precisa, porque o Euro não é oficialmente a moeda do país, mas é usada por todos. É estranho, sabemos, mas é assim.

A explicação para isso passa pela hiperinflação do dinar jugoslavo, que levou em 1999 o país a adotar o marco alemão como moeda. Três anos depois, como a moeda germânica deixou de ser o marco e passou a ser o euro, o Montenegro viria a seguir os mesmos passos e desde então é essa a sua moeda oficial.

Quanto à questão do espaço Schengen, é algo importante. Ao não fazer parte do acordo que permite movimento livre entre os países europeus, para se entrar no Montenegro é necessário ter passaporte válido.

Por fim, as comunicações. O mesmo problema. Não fazendo parte da União Europeia, a utilização do nosso cartão SIM acarreta gastos adicionais. Os mesmos que teríamos, por exemplo, na Suíça. No caso da Vodafone, há um tarifário especial que nos permite utilizar dados de forma normal por 4,90 euros/dia. A outra opção é comprar um SIM físico ou um eSim.

Como chegar

Mas que bela aventura! Chegar a Podgorica não é fácil. Nada fácil. E depois de lerem esta crónica, se ainda vos restava alguma vontade, provavelmente vão perdê-la ao ler o que vem a seguir. No nosso caso, para chegar de Lisboa a Podgorica, demorámos cerca de 10 horas. Com 3 voos pelo meio para cada lado. Lisboa-Frankfurt-Viena-Podgorica para lá. Podgorica-Viena-Munique-Lisboa para cá. 10 horas para cada lado…

Chegados ao aeroporto da capital montenegrina, temos três hipóteses para chegar ao centro: táxi, autocarro e comboio.

O táxi, como habitual, é a opção mais fácil. Custa 15€ (verba fixa) e leva-nos até ao centro em cerca de 20/30 minutos.

O autocarro são assegurados por 3 operadores distintas, que garantem cerca de 20 viagens diárias. Os horários estão disponíveis aqui.

Já o comboio, é uma aventura e tanto. Não o recomendamos, a não ser que queiram ter uma experiência completa. A estação do aeroporto mais parece um daqueles apeadeiros perdidos no meio do nada. A viagem de comboio em si demora cerca de 10 minutos entre a estação da capital e a do aeroporto, mas dali resta-nos uma meia hora a caminhar, vindos do meio do nada, até ao terminal do aeroporto. A única vantagem: custa apenas 1,2 euros. O bilhete, se apanharem o comboio do aeroporto para o centro, é comprado a bordo. Se for no sentido inverso, tem de ser comprado na estação. Ah! Não esperem muita simpatia de quem está na estação para vender os bilhetes…

Isto é a estação de comboios do aeroporto
Onde ficar

Sendo uma capital, Podgorica tem várias cadeias internacionais de hotéis, desde o Hilton, ao Ramada até ao Crowne Plaza. No nosso caso, ficamos alojados no Kings Park Hotel, um 4 estrelas que num país de Europa Central ou Ocidental seria, quanto muito, um 3 estrelas. Bem localizado, com condições razoáveis. Já estivemos em melhores hotéis e bem mais baratos.

O que comer e onde

Um dos pontos mais fortes da capital do Montenegro. E do país em si. A comida é muito bom. E as doses são bem fartas. Uma dose normal serve perfeitamente duas pessoas. O que para um maratonista, especialmente no pós-prova, é algo que se agradece. Aqui os pratos típicos andam muito em torno da carne (cabrito, vitela, porco, carneiro…) e também algum peixe. Há também um orgulho muito nacional pelo queijo da região e ainda o presunto (o njeguški pršut).

No nosso caso, fazendo uma recomendação clara, apontamos o Konoba Lanterna. Boa comida e empregados muito simpáticos. Fomos lá duas vezes e em ambas saímos mais do que satisfeitos. Tanto pela comida, como pelo atendimento. Na primeira visita comemos cordeiro assado com batatas recheadas com molho de iogurte e queijo fresco (o Jagnjeći but) e ainda uma sobremesa chamada Tufahija. A acompanhar isto, como bons portugueses, provámos o Lepinja, um pão tradicional, e ainda um sumo natural de framboesa.

No domingo, no pós prova, fomos algo mais arrojados. Queríamos provar o queijo tradicional e o presunto e, como estava sozinho, o empregado fez um mix com meia dose de cada (peçam, que eles fazem). Estava, como seria de esperar, delicioso. Acompanhámos, novamente, com o Lepinja. Para prato principal, seguimos novamente a dica do empregado: filetes de porco em azeite (Svinjski file u maslinovom ulju), acompanhado novamente das tais batatas. Para sobremesa, fomos a uma Baklava, um doce típico da Turquia, mas que já foi adotado como sobremesa nacional do Montenegro. Ah! Tudo regado com uma típica cerveja local: uma caneca de Podgoričko pivo.

Enfim, aqui chegados já perceberam que o melhor foi mesmo… a comida!

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