O mundo do atletismo tem vivido nos últimos tempos muito na base do “Se parece bom demais para ser verdade, provavelmente é.” Os resultados da Bashir’s Run, realizada em 8 de março, encaixavam-se nessa suspeita. Não por uma qualquer suspeita de doping como vem sendo recorrente, mas porque os tempos de todo o top-10 – incluindo um possível recorde nacional de Bashir Abdi (59:28) – pareciam indicar que algo não batia certo, pois todos tinham batido recordes pessoais. E, soube-se agora, não batia definitivamente certo.
Quase três meses depois da prova, a organização anunciou que uma medição posterior – necessária para ratificar o recorde – concluiu que a prova estava mal medida e que os 59:28 de Abdi foram, afinal 60:06. Com isso, o máximo belga continua nos anteriores 59:51 e, mais importante de tudo – pelo menos para nós portugueses – Samuel Barata continua a estar no top-10 europeu de sempre (com 59:40, empatado com Morhad Amdouni).
Uma confusão na manhã da prova
Tudo o que sucedeu naquele dia foi uma enorme confusão e este desenlace é apenas mais um episódio de algo que não devia acontecer no atletismo. Muito menos numa prova de campeonato nacional. E é até caricata a forma como tudo aconteceu.
Porque, na verdade, a prova até estava bem medida e tinha os obrigatórios 21.0975 quilómetros. O problema foi mesmo a decisão tomada na manhã da prova.
Mesmo depois de todo o processo de medição ter sido feito meses antes, terão surgido interrogações relativamente a todo esse processo. Por isso, sem se saber bem com que informações concretas, as instâncias responsáveis decidiram antecipar o tapete de registo de meta cerca de 200 metros, colocando-o logo à entrada da pista de atletismo, mantendo o pórtico de meta no local original. Por isso, no dia de prova surgiram logo dúvidas: Abdi passou no pórtico nos tais 1:00:06, mas na cronometragem estava o recorde nacional de 59:28.
Dois meses e meio depois, surge a confirmação: a prova estava mesmo bem medida, mas o tempo final anunciado não foi o correto. Nenhum atleta foi afetado no resultado final, mas durante praticamente três meses muitos acharam ter feito novos recordes pessoais – e até o tal nacional de Abdi -, quando na verdade não foi caso…
O top-10 corrigido (e os tempos iniciais)
- Bashir Abdi, 1:00:06 (59:28)
- Brian Kipchumba, 1:00:37 (1:00:00)
- Robin Hendrix, 1:01:02 (1:00:23)
- Dorian Boulvin, 1:01:28 (1:00:51)
- Patrick Nimubona, 1:01:33 (1:00:55)
- Liam Boudin, 1:01:43 (1:01:05)
- Tim Vincent, 1:01:55 (1:01:17)
- Hiskel Tewelde, 1:02:17 (1:01:39)
- Thomas De Bock, 1:02:17 (1:01:39)
- Noah Schutte, 1:02:25 (1:01:47)

Organização pede desculpa
“Os atletas sempre estiveram no centro da Bashir’s Run. Compreendemos que as dúvidas suscitadas e a confirmação tardia dos tempos oficiais tenham sido fonte de frustração para os atletas, apoiantes e todas as pessoas envolvidas. Queremos sublinhar que também nós lamentamos profundamente o sucedido. Ao mesmo tempo, pretendemos esclarecer que certos aspetos técnicos relacionados com a cronometragem e a validação escapam ao controlo direto da organização. Enquanto organização, continuamos totalmente empenhados em garantir o bom desenrolar e a qualidade das nossas competições, e fazemos também questão de que a distância esteja correta. Tiramos lições desta situação para continuar a visar os padrões mais elevados no futuro“, assegurou Bert Misplon, organizador da prova.

