Vencer uma World Marathon Major logo na estreia é um feito reservado a um grupo muito restrito de atletas na história do atletismo mundial. Fazer isso na exigente e ondulada Maratona de Nova Iorque, batendo um dos pelotões mais profundos de sempre, eleva a fasquia e coloca Andreas Almgren num patamar bem elevado. Especialmente sendo ele europeu.
Já muito se foi dizendo e escrevendo sobre a performance do sueco e a Coros divulgou esta quarta-feira mais uma série de dados que mostram não só os bastidores fisiológicos da preparação como também os próprios registos recolhidos pelo relógio de Almgren ao longo da prova.
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O duelo com Crippa e o ataque decisivo no Central Park
A decisão da prova desenhou-se já perto do Central Park, num autêntico reencontro de titãs. A menos de 1,5 km do fim, Almgren corria lado a lado com o italiano Yemaneberhan Crippa – reeditando a luta direta que ambos travaram pelos títulos europeus de pista e estrada.
Mesmo sem ter a certeza absoluta de como o seu organismo iria responder nos metros finais da sua primeira maratona, o sueco manteve o olhar focado em frente, aumentou ligeiramente a inclinação de tronco e lançou uma aceleração progressiva. “A cerca de 5 km do fim senti que ia estar na luta até à meta, mas só tive a certeza de que a vitória era minha quando vi que o Crippa estava a ceder”, confessou o atleta sueco após a consagração.

Os dados do seu relógio, divulgados pela Coros, explicam bem a dimensão do ataque. Últimos 600 metros em 1:34 minutos, a 2:37/km. O batimento cardíaco atingiu aqui o pico, ao chegar aos 177 bpm. Era o momento chave e tanto o coração como as pernas do sueco não falharam.
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BIKILAConfiança cega nas métricas para vencer o medo dos últimos 10 km
Qualquer maratonista conhece a apreensão que antecede os derradeiros 10 quilómetros – o ponto onde o desgaste muscular e o esgotamento energético cobram a fatura. Para quem compete na distância pela primeira vez, essa incerteza ganha contornos ainda mais intimidantes. Especialmente a estes ritmos diabólicos.
A diferença competitiva de Almgren reside na sua abordagem cirúrgica aos treinos. O sueco construiu a sua confiança sobre métricas concretas: controlo rígido de zonas de treino, carga acumulada, resposta da frequência cardíaca e gestão de ritmo em subida e descida.
“Os dados são algo crucial para tudo o que faço”, destacou o sueco. Saber exatamente quanto podia exigir do corpo nos segmentos mais duros da Primeira Avenida e nas pontes de ligação entre os boroughs nova-iorquinos permitiu-lhe poupar as reservas vitais para responder ao sprint final em Manhattan.
E houve um treino que também o ajudou bastante nessa tarefa, como o próprio assumiu. Feito em Flagstaff, a uns 2000 metros de altitude, tinha como objetivo controlar o esforço na Zona 2 num traçado em tudo similar aos altos e baixos de Nova Iorque. O ritmo não era importante, mas sim manter um esforço controlado. Rápido nas descidas e constante nas subidas.

Estes 36 quilómetros, olhando puramente aos números, não foram nada de especial. A 3:39/km, Almgren andou em ritmo de maratona feminina. Mas fê-lo com mais de 90% do trabalho em Zona 2 ou abaixo.
Uma espaço de trabalho que, na verdade, foi o grosso da sua preparação. De acordo com a Coros, 87% do treino para esta maratona foi em Zona 1 ou Zona 2. As 3 e 4 representaram apenas 12% e as 5 e 6 praticamente não foram tocadas (apenas 1%).
Um split negativo que mostra precisão máxima
O percurso de Nova Iorque já de si é bastante exigente e pior se torna se levarmos em conta que a segunda metade é mais dura do que a primeira. E isso, no papel, torna bem difícil um negative split (correr a segunda metade mais rápido do que a primeira). Quando tal sucede há duas possibilidades: ou a prova foi muito tática ou, então, o atleta que vence é de outra qualidade.
Almgren… faz ‘check’ nos dois. Controlou a concorrência para uma passagem aos 21 quilómetros em 1:04:04 (a 3’02/km e com 156 bpm) e depois, na fase final, foi gradualmente aumentando o ritmo para ir eliminando adversários. Nesses últimos 21 quilómetros fez 1:01:57, a 2:56/km. E apenas com uma bem subtil subida nos batimentos cardíacos, até aos 163 bpm de média.

No final, olhe-se por onde se olhar, uma coisa é clara: aquilo que Andreas Almgren fez em Nova Iorque será por muitos anos recordado como uma das maiores atuações de sempre de um atleta europeu na alta roda do atletismo mundial.

