Quando a Kiprun nos fez chegar as KIPSTORM LAB tive uma sensação agridoce. Primeiro, fiquei muitíssimo satisfeito por ter sido escolhido para receber uma das 500 unidades que foram comercializadas à escala global. Mas também fiquei triste porque as recebi numa altura em que estava sem poder treinar, devido a uma lesão. Foi um pouco complicado olhar para aquelas sapatilhas, ficar cheio de vontade de perceber o que valem e não poder fazê-lo.
Mas, no final de contas, a espera valeu a pena. Recuperei, voltei a colocar ritmo nas pernas e, há cerca de um mês, pude colocá-las à prova. E logo aí tive a oportunidade de perceber tudo aquilo que a Kiprun tentou vender com este modelo. Tem alguns pontos menos bons, mas é um passo em frente muito claro da marca francesa rumo à luta com os pesos pesados. Não está lá ainda, mas se continuar neste caminho de evolução, vai lá chegar.
E quando falo em “vender”, que melhor publicidade poderia ter tido este lançamento do que o recorde europeu dos 5 quilómetros fixado por Jimmy Gressier em março – os 12:57, que o tornaram no primeiro europeu a baixar dos 13 minutos. Isso confirmou muita coisa sobre este modelo, mas o nosso teste também permitiu confirmar outros aspetos.
O mais importante: este é um modelo pensado para correr rápido, muito rápido e com uma distância máxima ali em torno da meia maratona. Para lá disso é possível usá-las, claro, mas é um enorme risco…

Especificações técnicas
| Peso | 161 gramas (41 EU) |
| Drop | 4mm (39mm – 35mm) |
| Uso recomendado | Racer (até meia maratona) |
| Preço | 300€ |
| Disponibilidade | Unidades limitadas |
Sensações de corrida
A primeira sensação é um pouco óbvia ao olharem para a ficha técnica que colocámos acima. São umas sapatilhas incrivelmente leves. Com apenas 161 gramas, mal se sentem quando as temos nas mãos e também quando as calçamos. São efetivamente umas peso-pluma, daquele tipo de sapatilhas pensado claramente para o dia da verdade. Mas é a correr que se sente a magia destas Kipstorm Lab.
Serem leves é um bom atributo à partida, mas também pode ser algo perigoso se não vier com o amortecimento certo associado. A Kiprun arriscou no corte de peso, mas não se deu mal. A espuma da meia-sola Feather Bounce consegue entregar um retorno de energia muito elevado e um amortecimento que se sente em harmonia perfeita com a velocidade quando vamos a dar tudo. O problema? Esse amortecimento parece ter um certo limite, ali no máximo em torno dos 21k. Diríamos que a praia deste modelo anda entre os 5 e os 10 quilómetros, um ‘sweet spot’ no qual é possível extrair tudo, tudinho, destas máquinas de velocidade.
No meio de tudo está, como vem sendo habitual nestes modelos rápidos, uma placa de fibra de carbono. Mas não é uma placa qualquer. Já as vimos a toda a largura e comprimento, já as vimos com pequenas asas laterais ou com as ‘varetas’ da adidas, mas a Kiprun apresenta aqui uma solução diferente. Uma placa em J, estrategicamente colocada para suportar o impacto do apoio a cada passada e dar um extra de retorno e também estabilidade. Uma estabilidade que acaba por ser perfeita para provas de distâncias curtas, onde vamos ao limite e onde, por vezes, viragens mais pronunciadas podem deitar tudo a perder. Com este formato de placa, a segurança nesse particular é claramente melhorada.

Mas, lá está: é um modelo um pouco limitado em termos de distâncias. Fizemos dois treinos de pista e um longo de 21 quilómetros. Nos treinos de pista, a resposta foi perfeita. Conseguimos não só manter o ritmo exigido, como também ser constantes nos parciais. Sim, foram a pernas quem correu, mas as Kipstorm Lab ajudaram em ambos os aspetos. Quanto à meia maratona que fizemos em treino, aí a história foi diferente. Foram também fantásticas a manter um ritmo constante (em torno dos 4’20/km) no grosso do trabalho – 1k de aquecimento, 17k a 4’20, 2k a 4’00 e 1k de arrefecimento -, mas notei claramente que a partir dos 15, 16 já tinha de trabalhar um pouco mais e a espuma afundava ligeiramente. Sim, é certo que não sou muito leve (62 kg para 1.65m), nem tenho uma técnica apurada, mas a sensação foi evidente.
Bem diferente, por exemplo, das KD900X LD+, as sapatilhas que usámos na Maratona de Bratislava e nos pareceram muitíssimo boa opção a preço (relativamente) acessível para ritmos entre os 4’00/km e 5’00/km para longa distância.

O upper
O peso pluma também passa por aqui. Passa muito por aqui, diríamos. Toda a estrutura superior respira minimalismo. Um camada fina em torno de todo o upper e apenas pontos estratégicos de material acolchoado para uma proteção extra (na língua e no contorno do calcanhar). Isso também ajuda a que o upper respire muito bem e dissipe o calor rapidamente. Apesar de ser claramente optimizado para poupar peso, não há qualquer problema de estrutura e de irritação quando corremos.
Outro ponto claramente apontado para a performance são os cordões super finos. Poupam um nadinha no peso, até têm um visual interessante, mas diríamos que falham no mais importante: agarrar bem. Temos de prestar muita atenção a este aspeto e apertar bem antes da prova, sob pena de termos de parar e deitar o nosso desempenho todo a perder.
Aqui é importante deixar um dado: quando comprarem, se não tiverem chance de testar primeiro, apontem a um número abaixo do vosso normal para corrida. Já tínhamos notado isso noutros modelos e estas Kipstorm Lab estão igualmente grandes. O fit, já agora, acertando no número, não falha.

O composto de sola
Como em todos os modelos de performance do mercado, as Kipstorm Lab apenas têm borracha injetada nos pontos de contacto – à frente e atrás – e procuram também aí reduzir no peso. Em piso seco em asfalto, que é para isso que são apontadas, respondem na perfeição. E com uns 70 quilómetros já corridos, o desgaste não é nada do outro mundo. Não tivemos a chance de as colocar à prova em piso molhado, mas pelo que tivemos oportunidade de ler não têm qualquer problema nesse particular.
Sendo um ‘racer’, pensado para cortar no peso, não esperem uma durabilidade enorme. Diríamos que os 300 quilómetros serão o limite desta sola, o que, fazendo contas, permite fazer muitas provas de 5 ou 10 quilómetros e vários treinos de qualidade. Lembrem-se, este é um modelo para o dia da verdade e não para treinar de forma regular.

Valem a pena?
Sim, mas… As Kiprun Kipstorm Lab são um avanço fantástico por parte da marca francesa e a prova clara de que a colaboração com Jimmy Gressier está a permitir dar passos importantes. Mas também tem os seus problemas. Ao ser limitado à meia maratona para a maior parte dos atletas populares, o investimento torna-se, se calhar, complicado de ser feito, até porque há cada vez mais pessoas a voltarem-se para a longa distância da maratona. Sim, porque este modelo custa 300 euros, o mesmo que normalmente temos de investir em sapatilhas de topo de gama, grande parte delas apontadas à maratona e todas as distâncias até lá.
Ainda assim, se o foco for correr provas curtas em ritmos elevados (de 4’00/km para baixo), esta é claramente uma boa aposta a ser feita. Até porque, a julgar pelo gasto da sola, esta borracha tem suficiente resistência para aguentar muita prova. É preciso, claro, usá-las apenas no momento certo. As pernas também vão agradecer, porque estas sapatilhas a ritmo mais lento do que 5’00/km sentem-se algo estranhas.
O ataque ao recorde mundial do Ekiden
Não o fizemos por acaso, mas esta review estava pronta para ser publicada na véspera de uma ação da Kiprun que ficou próxima de resultar num enorme sucesso. Em França, no MAIF Ekiden de Paris, uma equipa de seis atletas da 42 House (ver vídeo abaixo) tentou quebrar o recorde mundial do Ekiden, ficando a apenas 59 segundos de alcançar o máximo vigente.
Com Elisha Barkutwo, Amos Kipkemoi, Edward Cheserek, John Aimun, Ezra Ondiso e Brian Kibor, a formação totalmente queniana cruzou a linha de meta em 1:58:05, contra 1:57:06 do recorde mundial, fixado em 2005 (no Japão) pelo sexteto composto por Josephat Ndambiri, Martin Mathathi, Daniel Mwangi, Mekubo Mogusu, Onesmus Nyerere e John Kariuki.
O recorde mundial desta modalidade (são seis estafetas de 5 km, 10 km, 5 km, 10 km, 5 km e 7.195 km seguidas) perdura, mas o ataque ao máximo fixado há 20 anos e o resultado obtido, apesar do objetivo falhado, diz algo sobre o potencial deste modelo. Para lá, claro, do dos atletas…









