Já testámos modelos de várias marcas, mas arriscamos dizer que a Coros foi aquela que mais vezes nos passou pelo pulso. E isso diz logo uma coisa muito importante para nós: apesar de ter falhas nesse aspeto, é uma marca que se preocupa com o nosso mercado, mesmo que continue a ser algo pequeno em comparação com os demais. A Coros, por exemplo, apoia há alguns anos Samuel Barata, o nosso melhor maratonista e recordista nacional da meia maratona.
De 2019 para cá, tivemos a chance de testar vários dos seus modelos. Do APEX, o primeiro que nos passou pelo pulso, ao VERTIX, chegando à série PACE, que tem sido a nossa favorita. Muito porque o nosso ‘core’ é o running e não necessitamos das inúmeras funções extra que os outros dois possuem. É um pouco como a série Fénix da Garmin. Para quem corre, os Forerunner (básicos) são mais do que suficientes. E é ainda que a Garmin tem falhado e a Coros se tem destacado. O Pace é uma prova disso mesmo.
É um relógio que tem um foco claro: a corrida e, quanto muito, o ciclismo e a natação – o que vai dar ao triatlo, no fundo. Claro que dá para fazer mais coisas, mas o foco deste relógio é mesmo esse. E sempre olhando à performance. Por alguma razão a NN Running Team, do grande Eliud Kipchoge, se vinculou à pequena marca de tecnologia norte-americana (com raízes chinesas). Tal como Jakob Ingebrigtsen, que leva o foco na performance mais longe ao preferir o PACE 3 ao PACE Pro para competir por ser mais leve e permitir recolher os dados que importam.

Uma evolução do PACE 3 e não do PACE Pro
Um ponto importante antes de começarmos. Apesar de surgir no seguimento do PACE Pro, este PACE 4 é a evolução do modelo 3. Isso nota-se no peso, nas dimensões e também no preço. Lançando já esses dados para a mesa, colocando os novos valores que estarão em vigor a partir de 14 de novembro, o novo relógio terá um PVP de 269 euros, contra os 229€ do PACE 3 e os 349€ do PACE Pro. Sim, o lançamento da nova versão vai tornar as outras bem mais baratas: o 3 desce 20€ e o Pro 50€.
Feito este preâmbulo, vamos ao seguinte. E o primeiro ponto que destacamos passa por algo que a Coros fez bandeira desde sempre: a bateria. Apesar de estar munido de um ecrã AMOLED, continua a ter uma autonomia imbatível. Nesta nova versão apenas tem dois modos de GPS (High e Max), que nos darão entre 24 e 41 horas de bateria. A tabela abaixo explica um pouco esses dados, mas comparando com o Pace Pro, o PACE 4 ganha em bateria no High Mode e perde ligeiramente no uso diário (de 19 para 20 dias). Nada de mais, portanto. Já quanto ao PACE 3, a mudança é grande, ganhando 16 horas em High Mode.
Outra mudança passa pelos mapas. Tal como no PACE 3, o PACE 4 tem esse recurso menos avançado, ao contrário do PACE Pro, que tinha mapas globais offline. No fundo, é um foco na performance, em algo mais simples e não tão técnico, como temos nos APEX ou VERTIX.
Disponível em duas cores (branco e preto), o PACE 4 possui um ecrã de 1.2”, com uma resolução 164% maior do que a que temos no 3. Em termos de brilho, atinge os 1500 nits, um valor igual ao que temos no PACE Pro. O ecrã, tal como as outras versões, é touch, mas como sempre dizemos é algo que não usemos muitas vezes. Pelo menos não em atividade.
Em termos de peso, a leveza é a nota dominante. 32 gramas com a banda de nylon e 40g com a bracelete de silicone. Um peso pluma que mal se sente no pulso, o que para competir ou treinar como foco na performance é algo que se agradece. Não tanto na performance propriamente dita, mas pelo nível de conforto.

Um novo botão que faz a diferença
Visualmente, o PACE 4 não parece muito diferente. Mas um olhar atento permite-nos detetar um novo botão no lado inferior esquerdo. O chamado botão de ‘Ação’ configurável ao nosso gosto. No nosso caso, é uma boa opção para fazer a mudança do ecrã de dados que nos aparece, mas pode ser usado para alternar com mapas e/ou fazer notas de voz. Do ponto de vista do interface, continua a ter os outros dois botões: uma coroa no lado direito superior e o chamado ‘back button’, normalmente para fazer ‘lap’.
Outra adição importante nesta saga (já a tivemos no APEX 4) é a introdução do microfone integrado, que permite gravar notas durante os treinos e/ou depois. Isso é importante, por exemplo, para partilhar no imediato pormenores do nosso treino ou prova, para não nos esquecermos de certos detalhes. Parece apenas um pormenor, mas quando se joga nas ‘fine margins’, pode ser importante. E até, por exemplo, se tivermos alguma ideia brilhante e queremos garantir que o nosso cérebro não se esquece dela.

Saúde: mais do mesmo
Não entendam o título deste tópico como algo negativo. Porque não é. O Coros PACE 4 mantém o nível elevadíssimo de deteção de dados de saúde que a marca já nos habituou. O sensor cardíaco está tão fiável como o do PACE Pro e isso é logo um ponto muitíssimo positivo. Tal como os outros sensores associados, que nos permitem ter uma fiável deteção do sono e do HRV, dois dados cada vez mais importante na hora de perceber se estamos aptos para a performance e recuperamos de forma satisfatória.
Tudo isto está no relógio, mas é na aplicação da Coros que se analisa ao extremo. E a app continua a ser igual. Muito boa. Bem organizada, com tudo de fácil análise. É por lá que conseguimos analisar o histórico do nosso batimento cardíaco, do HRV e todos os dados do nosso treino. Isso e também as previsões de prova, que connosco funcionam incrivelmente bem. Já vimos casos diferentes, mas no nosso caso particular ficamos sempre muito próximo daquilo que o algoritmo da Coros nos dá.

O teste de fogo
Com alguns problemas alfandegários pelo meio, apenas recebemos o PACE 4 na 5.ª feira e isso encurtou-nos um pouco o período de teste. Ainda assim, não houve grande problema, pois o teste definitivo estava sempre guardado para domingo. Uma maratona no Montenegro. Com a particularidade de serem duas voltas, com várias viragens e passagens junto de rios e pontes. Uma maratona numa grande cidade seria certamente um teste bem mais exigente, mas este não foi totalmente fácil.
E o PACE 4 saísse (quase) brilhantemente. Do ponto de vista da deteção do percurso, a eficácia foi incrível. Sendo duas voltas, era muito fácil detetar falhas no desenho do traçado, mas a verdade é que uma análise profundo desse ‘risco’ permite-nos perceber que as falhas foram mínimas. E a distância que nos deu no final confirma isso mesmo: 42.23. 40 metros a mais do que a distância oficial da prova. Menos de 1 metro de diferença por quilómetro.

Outro dado que nos saiu de forma perfeita foi o do sensor cardíaco. Comparando-o com os dados de uma banda dedicada (no caso a da Wahoo), os resultados foram iguais. 149 bpm em ambos os dispositivos. Olhando ao perfil, não sendo exatamente igual, os dados neste particular foram praticamente iguais ao longo dos quase 210 minutos de prova.
Mas a verdade é que nem tudo correu bem neste teste. Ainda estamos a tentar perceber o que realmente se passou – atirando a justificação para o facto de ser uma versão Beta do firmware -, mas a partir dos 20 quilómetros o relógio passou para o modo de mapa e tornou-se impossível sair dali durante a atividade. Se tivéssemos o touch screen ativado seria facilmente contornado, mas com os botões não conseguimos mudar o ecrã e fizemos a segunda metade da prova totalmente às ‘cegas’ quanto ao nosso ritmo. Não que importasse muito… porque levámos uma marretada daquelas!
Balanço final: o que vale este Coros PACE 4? Falando de valor, por 269€* é provavelmente o melhor relógio do mercado em termos de preço/qualidade. Sim, é um relógio simples, talvez até tenha um aspeto frágil por ser algo ‘plástico’, mas desengane-se quem ache que este relógio não tem capacidade para durar e aguentar muita coisa. De quem já usou outros PACE, podemos garantir que levam aqui uma máquina para durar muita batalha. E, já agora, um relógio que vai certamente ser algo de melhorias no firmware, com atualizações regulares que o tornarão ainda melhor. Sim, ainda melhor. E isso é difícil, porque o nível ao qual chegou já é muito elevado.
*- os 269 euros são o preço de lançamento a 10 de novembro. Quatro dias depois, a Coros irá retocar os valores de venda dos demais modelos da série PACE. O PACE Pro passará de 399€ para 349€ e o PACE 3 de 249€ para 229€.




