Polar Loop: uma boa ideia e uma execução falhada

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Na sombra de uma Garmin que continua a ser rainha no mercado dos relógios desportivos – e com outras marcas à espreita e mais bem colocadas, como a Coros ou as fabricantes de smartwatches como Huawei ou Apple -, a Polar tem perdido algum terreno nesse particular, apesar de lançar modelos aparentemente competitivos.

Talvez por isso, na tentativa de se evidenciar de outra forma, a marca finlandesa decidiu dar o salto para outro campo de atuação: o das bandas ao estilo da Whoop (sem visor e com um ecossistema baseado na aplicação própria). A ideia era boa, mas fica claramente a meio caminho. É, no fundo, como dizemos no título, uma boa oportunidade que se perde. E, se calhar, um falhanço do qual a Polar precisará de um bom tempo para se recompor.

Especificações técnicas

Peso29 gramas
Tamanho42 x 27 x 9 mm
Resistência à águaaté 30 metros
ConectividadeBluetooth 5.1 e USB-C
Processador e memória64 MHz e 1.3MB
Capacidade 16MB
SensoresPrecision Prime Optical HR e acelerómetro
GPS integradoNão tem. Funciona com o telemóvel, na Polar Flow
Preço199€
SubscriçãoNão tem

E temos de confessar que quando a recebemos ficamos muitíssimo entusiasmados. A começar, desde logo, pelo visual daquilo que a Polar nos colocou à disposição. Um modelo num tom ‘Gray Sand’, uma espécie de ‘Areia Cinzenta’ numa tradução literal. Visualmente, se fosse só isso que contava, ficaríamos desde logo conquistados. Como também ficamos, já agora, com todos os toques de um certo luxo nos acabamentos, como o símbolo da Polar ou a forma como a própria bracelete está construída. Ou até pela forma como assenta no nosso pulso, pela sua leveza extrema (mal se sente no pulso!) ou pelo fácil ajuste ao mesmo. Nisso, diríamos, a nota é de 100. Sem qualquer ponto de reparo.

O problema foi mesmo o que veio depois. No geral, a Polar Loop deteta muito bem todas as métricas que promete. Bem… quase todas. Mas já lá vamos.

A ideia deste modelo é clara e está bem expressa na promessa que a marca faz na apresentação. “Melhor sono. Uma recuperação inteligente. Mais movimento – sem o barulho”.

Ok. Tudo bem explicado. E, no fundo, tudo bem defendido naquilo que entrega. Especialmente por um aspeto em que consegue superiorizar-se à Whoop. Não obriga a qualquer subscrição. Pagamos o dispositivo (169 euros) e não temos de pagar mais nada – ao contrário da Whoop, que nos obriga a pagar 199 euros por ano.

As várias opções de cores

Nos dados, aplicando bastante foco na recuperação e no aspeto do descanso/sono, um elemento que cada vez mais faz a diferença entre ter uma boa performance ou um dia de competição para esquecer, a Polar consegue abranger as métricas essenciais, como o sensor cardíaco ou a variação da frequência cardíaca noturna, que com base no algoritmo próprio permite perceber se estamos a conseguir o descanso necessário ou se, pelo contrário, devemos levantar o pé e treinar com menor intensidade ou até mesmo descansar.

Só que há outra coisa que a Polar promete, mas em que falha redondamente. Nas promessas que faz, a marca finlandesa garante ter deteção automática de treinos, mas aí falha em absoluto. E em vários aspetos. O primeiro deles passa pela incapacidade para detetar o tipo de atividade que fizemos. Quer seja corrida, bicicleta, saltos à corda, futebol, o que seja, para o Polar Loop é tudo “Outro de interior”. E, pior, a deteção não é instantânea: pode dar-se o caso de apenas ser detetada uma atividade como tal somente 10 minutos depois de termos começado, por exemplo, o nosso treino de corrida. E isso, num dispositivo que tem como objetivo medir e criar um equilíbrio entre o índice de treino e o que descansamos, acaba por tornar tudo num falhanço absoluto. Porque 10 minutos aqui e ali vão certamente desvirtuar todo o resultado criado pelo algoritmo.

Mas há mais. Na aplicação podemos definir a sensibilidade da deteção das atividades, sendo a melhor recomendação colocá-la no nível ‘Alto’. Isso garantiria que apenas seriam detetadas reais atividades físicas. Só que já por várias vezes não foi isso que aconteceu. Recentemente, num momento em que simplesmente estávamos nas lides da casa, de forma muito descontraída, a Polar Loop detetou um treino de meia hora, com quase 300 kcal gastas. Ou então quando vamos a caminhar tranquilamente na rua e, do nada, a pulseira deteta uma atividade. Isto, claro, sem termos qualquer controlo das suas ações, pois o objetivo deste modelo é esse mesmo: libertar-nos das distrações e deixar que o dispositivo faça a deteção por si só.

Por aqui fazemos muita da nossa atividade física com corrida e foi aí que tivemos a oportunidade de ver as variadas situações nas quais a Polar Loop falhou. Como quando no último domingo fomos correr uma maratona. A deteção do arranque da atividade foi praticamente perfeita (apenas 1 minuto de delay), mas o pior veio depois, algures aos 32 quilómetros, quando por uns 20 a 30 segundos parámos para beber um copo de água e recuperar o fôlego. O registo parou por aí e, mesmo correndo os últimos 10 quilómetros em torno dos 5’20/km, para a Polar Loop estes últimos 10 quilómetros simplesmente não existiram.

A falhada deteção da minha Maratona de Podgorica…

Quanto à capacidade de detetar o ritmo cardíaco, em praticamente todo o período de testes o comportamento foi amplamente positivo (comparado com uma outra banda dedicada da Wahoo), mas bastaram dois dias de corrida debaixo de uma tempestade para termos dados totalmente fora do lugar. Teremos encontrado um problema na captação dos dados, que fica totalmente afetada quando o pulso fica encharcado de água? É possível!

Aplicação é confusa, mas os dados são incríveis

Há algo no qual a Polar tem urgentemente de trabalhar. A aplicação Polar Flow está há muito a precisar de uma imagem nova. Está demasiado presa à organização do passado e, olhando à concorrência, é fácil perceber porque numa Garmin Connect nos sentimos sempre capazes de entender tudo e nesta… nem por isso. Contudo, também temos de dizer que esse é mesmo o único ponto negativo da aplicação. Há aí uma atualização a caminho e, se mexerem como se espera, então vamos ter muitas coisas boas a dizer.

Porque é mesmo isso que temos de fazer quanto aos dados recolhidos pela pulseira. Especialmente no que ao sono diz respeito. Como sucede na maior parte dos relógios avançados, a pulseira deteta o nosso sono e o tempo que passamos nos mais variados estados de relaxamento e as interrupções que tivemos. Tudo somado, com base no algoritmo, a Polar Flow cria um resultado do chamado ‘Nightly Recharge’, que nos mostra quão bem descansamos. Além disto, após vários dias de utilização, o algoritmo é capaz de prever quão alerta estaremos ao longo do dia e a partir de que hora teremos aquela habitual quebra de energia (que normalmente combatemos com um cafezinho…). Acreditem: tem batido certo!

Os dados que a Polar Flow nos dá quanto ao descanso

Independente de tudo… até mesmo dos relógios Polar

Esta review anda aos ziguezagues entre o que é bom e o que é mau, mas a verdade é que este modelo é mesmo isso. Muito pouco consistente. E um dado que nos espantou foi a totalmente impossibilidade de emparelhar com um outro dispositivo. Nomeadamente um relógio da própria Polar. Imaginem-se neste cenário: têm um relógio dessa marca e, na impossibilidade de recolher os dados de GPS a partir da Loop, quererem combinar ambos e garantir que a vossa atividade foi detetada da melhor forma. Simplesmente… não dá. E mais: é impossível ter os dois dispositivos emparelhados no mesmo telemóvel.

Que sentido isto faz? Nenhum, dizemos nós.

O que falta, então?

A Polar Loop é, como dizemos no título, uma boa ideia que fica algo a meio caminho. E é pena. Tem pontos bastante positivos, mas também falha em algo no qual, vindo da Polar, não se esperava. Resolver a questão da auto-deteção das atividades e saber catalogá-las de forma correta tem de ser a prioridade máxima da marca finlandesa. Isso e permitir pelo menos que a banda trabalhe diretamente com os relógios da marca. Se o conseguirem numa atualização de firmware ou, em último caso, com uma terceira geração, então sim… aí a Polar terá feito aqui um modelo que vale a pena.

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