Numa altura em que cada vez mais corredores se aventuram em longas distâncias, quase como se não houvesse nada mais na corrida do que os 21 ou 42 quilómetros, decidimos fechar o nosso 2025 de provas com uma distância bem mais curta e com um registo em que o que menos importa é o relógio. Claro que há vontade de fazer mais e melhor (no caso menos tempo), mas há provas que merecem ser vividas de uma forma diferente. Esta Course de l’Escalade, uma das mais emblemáticas da Suíça, é uma delas. Não tão conhecida por cá, merece claramente uma atenção especial para quem quer começar a pensar no seu calendário de provas (e turismo) para 2026.
Sempre a quisemos fazer, por tantas coisas termos lido sobre ela e também pelo que vamos vendo da elite que por lá corre ano após ano, e não podíamos ter ficado mais agradados por tudo o que ali vivemos. Olhando a nu, de forma bem ponderada, não conseguimos encontrar nada que pudesse ser melhorado. Em termos de organização e experiência global do corredor, a ‘Course de l’Escalade’ está lá no topo!
O que é a ‘Course de l’Escalade’?
Antes de irmos à nossa experiência, vamos explicar o que é esta prova e o que faz dela algo diferente e especial. Primeiro a distância: não é carne nem é peixe. Não tem 5 nem 10. Tem sim… 7,285 quilómetros. Uma distância curiosa, que é feita num percurso de três voltas na zona central e histórica de Genebra. Com um sobe e desce constante (+155 m / -164 m), em piso empedrado durante praticamente 50% da distância, o que acrescenta ainda mais dificuldade caso o dia esteja chuvoso (no sábado, o dia da nossa prova, não estava… e ainda bem!). Ao todo, são 3/4 subidas de alguma dificuldade a cada volta, o que exige estarmos praticamente sempre no ‘red line’. Não há um minuto de sossego. Até porque o público não deixa.
Este ano, a Escalade realizou-se pela 47.ª edição e isso diz muito sobre a tradição que já vem cimentando. E os números de inscritos confirmam-no: mais de 50 mil corredores a participar em todas as provas do programa, alinhadas de forma perfeita ao longo do fim de semana – de sábado de manhã até domingo à tarde. Até nisso a prova está muitíssimo bem organizada.
Criada em 1978, a Course de L’Escalade não é apenas uma corrida, mas antes uma afirmação da identidade genebrina, misturando orgulho histórico, lendas locais e desporto de massa numa grande festa popular. E, acima de tudo, do ponto de vista histórico serve para assinalar os factos reais ocorridos em 1602, quando na noite de 11 para 12 de dezembro o Duque de Saboia, Carlos Emanuel I, tentou invadir a República de Genebra (então uma cidade-estado protestante independente) num ataque surpresa noturno. Tentou, mas não conseguiu e Genebra ficou a salvo.
O programa do fim de semana:
Sábado:
10h50 até às 12h20: Seniores 2 voltas (4,832 km), com 4 blocos de partida
12h50: Juniores 2 voltas (4,832 km)
13h20: Juniores 3 voltas (7,323 km)
13h55 até às 17h50: Seniores 3 voltas (7,323 km), com 6 blocos de partida
18h50: Marmite (3,593 km – prova não competitiva)
19h30: Caminhada (9 km)
Domingo:
9h25 até às 9h40: corrida país e filhos (1,360 km)
10h10 até às 14h05: corridas de crianças e jovens (1,360 km até 4,832 km), dos 6 anos aos 17, divididos por idades – 16 corridas no total
14h35: Escaladélite feminina 3 voltas (7,323 km)
15h10: Escaladélite masculina 3 voltas (7,323 km)
15h40: Flexi Mix 1, 2, 3 voltas
16h40: Estafetas 2 voltas (6,880 km)
É assim, com praticamente 20 horas de atividade entre os dois dias, que a zona central de Genebra se une para uma verdadeira festa. Dos mais novos aos mais velhos, dos mais rápidos aos menos velozes, de quem quer correr, de quem quer caminhar. Ou de quem, simplesmente, quer ver a prova e apoiar conhecidos e desconhecidos. Nestes dois dias, a cidade velha de Genebra enche-se de entusiasmo e todos embarcam na mesma onda. Como devia sempre ser.

A experiência global
Há muito a elogiar e muito pouco a criticar nesta prova. Mas comecemos pelo princípio. O procedimento de recolha do kit de prova. A nossa corrida era às 13:50 de sábado e fizemos a recolha do nosso dorsal pelas 12:30. Sem qualquer fila enorme, com uma rapidez de assinalar. Nesse momento é-nos dado somente o dorsal e uns alfinetes. Não há t-shirt de prova nem qualquer tipo de brindes (mas o do final vale bem a pena).
Nesse espaço, uma tenda muitíssimo ampla, temos uma expo de fazer inveja a várias provas internacionais, com expositores de diversas marcas de referência e, claro, muitos comes e bebes. Aí na tenda e, também lá fora, com street food de todo o tipo, principalmente produtos locais, como o vinho quente ou as típicas raclette.
Nesta espécie de centro nevrálgico está tudo muito bem organizado e sinalizado, com várias passagens superiores para permitir a movimentação de atletas e público naquele espaço. Tudo funciona absolutamente na perfeição, muito também pelo trabalho incansável dos voluntários. Já os elogiámos muitas vezes no passado, mas aqui em Genebra pareceu-nos ainda mais evidente o esforço e dedicação que todos tinham pela sua tarefa. Havia quase uma sensação de missão em todos eles…
Depois, em prova, o elogio vai para o público. O facto do percurso ser concentrado em 2 quilómetros e qualquer coisa por volta, ajuda bastante, mas mesmo assim foi algo especial. A prova é dura, tem algumas subidas complicadas, mas é aí que o público é incansável a apoiar. Chega a ser ensurdecedor. Logo na primeira volta fez lembrar aquele ambiente que se encontra, por exemplo, num Giro ou num Tour, quando na zona de meta os espetadores batem nos painéis publicitários para criar um ambiente ‘barulhento’. Ali, em qualquer uma das subidas, é um empurrão que se agradece. Como também foram os gritos pelo nosso nome (que ia, e bem, colocado no dorsal de todos).
Passados os 7 quilómetros e qualquer coisa, chegamos à meta e temos à nossa espera o necessário recovery. Uma maçã, água, chá quente, leite chocolatado. E, por fim, algo que nos conquistou por completo. A Course de L’Escalade não tem medalha. Mas oferece dois copos (um grande e outro pequeno) alusivos à edição da prova, desenhados por um artista local. Um ‘souvenir’ diferente, que torna a experiência ainda mais especial.

A nossa prova, as 3 voltas
Quando nos inscrevemos tínhamos bem claro que queríamos desfrutar ao máximo da experiência, mesmo que isso significasse sofrer um bocadinho mais com as subidas. Decidimos, por isso, entrar na corrida de 3 voltas. Registámos o nosso tempo previsto (aqui é importante serem honestos nas vossas previsões – diríamos que o ritmo de 10 quilómetros é um bom indicador para a previsão) e fomos colocados logo no primeiro bloco de partida.
O clima, que no domingo esteve agreste, com muita chuva e algum vento, para os populares foi agradável. Uns 10 graus, uma pequena brisa e o piso praticamente seco. Eram as condições perfeitas para correr. Tínhamos levado luvas e gorro, mas deixámos de lado. Quanto às sapatilhas – um ASPETO MUITO IMPORTANTE -, optámos pelas PUMA Deviate Nitro Elite 3, uma escolha que se revelaria certíssima.
Antes de começarmos tínhamos definido como objetivo fazer uma marca abaixo dos 30 minutos, correndo ali próximo dos 4’00/km. E, quando arrancámos, fomos com essa ideia em mente. A primeira subida, que fazemos somente uma vez, é logo um teste importante. Com o corpo ainda algo ‘sonolento’, custou mais do que se esperava. Mas também a estratégia era de começar cauteloso e, se o corpo reagisse, soltar o ritmo.
Completámos a primeira volta em 9:44,9, a 3:59 min/km. Na altura estávamos no 998.º posto (aqui no total de todas as provas). Quando começámos a segunda volta já sabíamos o que esperar. As subidas mais duras, onde podíamos atacar, onde teríamos de gerir. E aí arriscámos um pouquinho mais, com 9:53,8, a 3:58 min/km.
A estratégia de contenção que seguimos foi inversa a muitos dos que estavam à nossa frente. Se na primeira volta acabámos a tocar os 1000 primeiro, na segunda terminámos em 641.º. E depois veio a última volta. O corpo estava bem. O percurso estava reconhecido e era hora de atacar. 9:12,2 nessa última passagem, a 3:50 min/km, para subir ao 507.º posto.
A (bem doce) tradição final
A Course de L’Escalade é uma festa popular, de lembrança histórico pela forma como a cidade se manteve a salvo do ataque de 1602. E termina a lembrar esse momento. Com o momento em que se parte a Marmite. Uma espécie de enorme caldeirão feito de chocolate, que depois de quebrado é distribuído aos presentes na tenda central da prova. E não é um chocolate qualquer. É um chocolate do bom. Do suíço, claro!
A edição do próximo ano, a 48.ª, ainda não tem data, mas irá sempre realizar-se no primeiro ou segundo domingo de dezembro. As inscrições abrirão mais perto da data, mas é provável que esgotem… num ápice!


Em suma, o que gostamos?
- Ambiente global da prova. É uma enorme festa;
- Sistema de largadas separadas funciona muito bem;
- Voluntários esforçam-se imenso para tornar a experiência em algo para recordar;
- O público empurra-nos a cada quilómetro, a cada subida;
- Não tem medalha, mas o detalhe dos dois copos como ‘souvenir’ está muito bem conseguido;
- A Expo faz inveja à de muitas maratonas;
- Organização global. Nada falhou;
E o que não gostamos?
- Gostamos literalmente de tudo!
| Percurso | Sobe e desce constante; 2 ou 3 voltas |
| Logística | 10/10 |
| Ambiente | 10/10 |
| Preços | 26 a 42 francos (28€ a 45€) |
| Data em 2026 | por definir |
| Bengaleiro | Sim |
| Blocos de partida | Sim |
| T-shirt gratuita | Não |
| Balneários | Sim |
| Potencial para recorde pessoal | N/A |
Recomendamos?
SIM, TOTALMENTE…
Dicas finais
Moeda e comunicações
Para uma viagem tranquila à Suíça, é necessário ter em conta que o país não pertence à União Europeia, o que impacta no nosso bolso e smartphone. A moeda oficial é o Franco Suíço (CHF) e, embora o cartão seja aceite em quase todo o lado, convém ter algum numerário para pequenos comércios; é possível também pagar em euros, mas a taxa de câmbio aplicada nas lojas é geralmente muito desvantajosa.
No que toca às comunicações, atenção ao roaming: as tarifas de dados e chamadas para números portugueses podem ser astronómicas, já que a Suíça está fora da zona de “roaming gratuito” da UE. A solução mais inteligente é desativar os dados móveis antes de aterrar e utilizar um eSIM de viagem ou comprar um cartão SIM local pré-pago (como os da Salt ou Swisscom), aproveitando também a excelente rede de Wi-Fi gratuito em estações de comboio e hotéis. No caso da Vodafone, há um pacote com 10GB para 7 dias por 10 euros.
Como chegar
Para viajar de Lisboa ou do Porto para Genebra, o avião é a opção mais eficiente, com uma oferta de voos diretos muito robusta.
A partir de Lisboa, operam-se cerca de 7 voos diários, distribuídos entre a TAP Air Portugal, a easyJet e a SWISS. Já a partir do Porto, a conectividade é igualmente forte, com 6 a 8 voos diários, onde a easyJet assume o maior protagonismo, acompanhada também pela TAP e pela SWISS. Esta elevada frequência permite uma grande flexibilidade de horários, com ligações que demoram pouco mais de duas horas, facilitando tanto viagens de negócios como de lazer.
Ao aterrar, a deslocação para o centro de Genebra é rápida e exemplar em termos de eficiência. A forma mais célere é o comboio, que liga o aeroporto à estação central de Genève-Cornavin em apenas 7 minutos, com partidas frequentes. Alternativamente, os autocarros urbanos (linhas 5, 10 ou 23) cobrem diversos pontos da cidade em cerca de 20 minutos. Embora existam táxis e serviços de Uber, os custos são elevados. Uma vantagem exclusiva para quem pernoita na cidade é o Geneva Transport Card, que deve ser solicitado no alojamento e garante transporte público gratuito em toda a rede urbana durante a estadia, incluindo o trajeto de regresso ao aeroporto.
Onde ficar
Aqui depende literalmente da carteira de cada um. E, se tiverem a nossa sorte, até podem ficar em casa de amigos em Genebra ou em cidades próximas. No nosso caso, ficamos em Lausana e, à distância de uma viagem de comboio de uma hora, chegámos facilmente a Genebra.
O que comer e onde (com a ajuda do Gemini)
Se procuras o equilíbrio entre o orçamento e a autenticidade, Genebra pode ser desafiante, mas existem “tesouros” onde os locais comem bem sem gastar uma fortuna (para os padrões suíços).
Aqui tens três recomendações de locais típicos e mais acessíveis para o pós-corrida:
- Buvette des Bains des Pâquis: É provavelmente o local com a melhor relação qualidade-preço de Genebra. Localizado num molhe sobre o Lago Leman, este espaço é gerido por uma associação e oferece um Fondue de Crémant famoso e muito mais barato que nos restaurantes da Cidade Velha. O ambiente é descontraído, com mesas partilhadas e uma vista incrível sobre o jato de água (Jet d’Eau). É o sítio ideal para o espírito comunitário da Escalade.
- Chez Ma Cousine: Com várias localizações (sendo a da Place du Bourg-de-Four, na Cidade Velha, a mais carismática), o conceito aqui é simples e focado num clássico local: o meio frango assado com batatas e salada. É uma refeição farta, saudável para recuperar energias e com um preço fixo muito competitivo. É um favorito dos estudantes e famílias durante os dias de festa.
- Auberge de Saviese: Situado no bairro de Pâquis, este restaurante mantém a decoração de um autêntico chalé suíço, mas com preços mais contidos que os hotéis de luxo. Além do fondue, podes provar a Croute au Fromage (uma fatia de pão generosa embebida em vinho branco e coberta com queijo derretido e ovo) ou as Rösti (batata ralada e frita com vários acompanhamentos). É comida de conforto pura para o frio de dezembro.
Dica Extra para Poupar:
Durante o fim de semana da Escalade, muitas associações e bancas de rua na Cidade Velha servem a tradicional Sopa de Legumes da Mère Royaume por apenas alguns francos. É uma opção nutritiva, muito barata e a forma mais autêntica de celebrar a lenda da mulher que derrotou os invasores com uma panela de sopa a ferver.
E, para fechar… um chocolate (ou 2 ou 3…) cai sempre bem!

