Belfast Marathon: a maior surpresa do ano

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Não dávamos nada por Belfast. Belfast entregou tudo. É um pouco isto que podemos dizer, de forma muito resumida, da nossa aventura na capital da Irlanda do Norte.

E não, a Maratona de Belfast não entra sequer no nosso top-10 de sempre, mas quando vamos para uma prova sem esperar nada e levamos uma experiência para recordar de forma positiva, é impossível não deixar palavras positivas.

Não é pelo percurso, porque ele é bem cinzento e chato. Não é pela rapidez, porque o perfil é um pouco ondulado – ainda que desça nos últimos 10 quilómetros. O que verdadeiramente nos conquistou em Belfast foram mesmo as suas gentes. Não antes da prova, porque aí nos pareciam algo frias e distantes. Para lá de não se perceber patavina do que diziam!

Foi sim o apoio absolutamente incrível ao longo de praticamente toda a prova. Sendo sinceros, nunca vivemos nada assim numa prova daquelas fora do radar. E já levámos muitas! De certa forma, no apoio popular a prova da capital norte-irlandesa faz-nos lembrar a surpresa que em 2022 tivemos em Copenhaga. E até com a mesma sensação: esperávamos um povo frio, sem fervor. Experienciamos algo totalmente distinto. E ainda bem que, aqui e ali, vamos tendo surpresas destas…

PercursoUm pouco ondulado
Logística8/10
Ambiente9/10
Como entrarInscrição normal
Preçosa definir
Data em 2027a definir
BengaleiroSim
Blocos de partidaSim (mas sem controlo)
T-shirt gratuitaSim
BalneáriosNão
Potencial para recorde pessoalNão
Distâncias adicionaisMaratona por estafetas

A experiência desta Maratona de Belfast começa ainda antes da partida, já que não arrancamos no centro, mas antes a uns 8 quilómetros, em Stormont Estate. Para lá chegar, a organização mobiliza uma incrível operação logística, com dezenas de autocarros (daqueles típicos de dois andares) que em 15/20 minutos nos colocam na zona da largada. Aqui o único reparo que fazemos é a ausência de informação sobre este transporte na hora da recolha do kit. Só soubemos dos horários no Facebook da prova e depois de muito vasculhar…

Sim, a logística é algo chata, mas diríamos que vale a pena, pois começamos a prova em frente ao Parlamento de Stormont, com um incrível cenário nas nossas costas, num enorme complexo que, para lá da sua utilização para a governação, está também para a prática desportiva (tem um ginásio outdoor, percursos definidos para trail e até uma zona de barbecue – e é também casa de uma Parkrun todos os sábados).

Como dissemos, o percurso não é propriamente interessante, mas esta maratona faz valer pela moldura humana que se junta à beira da estrada. O primeiro impacto sente-se logo nos quilómetros iniciais. Na altura podemos pensar que é uma exceção, mas o que se segue confirma que é antes a regra. E, repetimos, não estávamos preparados para isto.

Milhares nas ruas, dos dois lados, uns mais ruidosos do que outros, uns a berrar, outros a bater palmas, outros simplesmente a segurar cartazes motivadores e outros bem humorados. Era tudo aquilo que uma maratona devia ser, mas que, infelizmente para nós portugueses, ainda é uma coisa bem rara de se ver. Até lá fora nem sempre se encontra.

Aqui temos apenas de fazer uma ressalva importante. Esta moldura humana ao longo do percurso é também pelo facto de haver em paralelo uma maratona de estafetas, o que vai espalhando corredores ao longo do percurso. São 3 os pontos de passagem de testemunho e aí, além dos fãs que estão a apoiar, temos também uma multidão de gente à espera da sua vez de correr. No caso, segundo os resultados oficiais, foram mais de 3 mil as equipas (de 5) que terminaram.

Outro dado a enaltecer são os abastecimentos e a forma como os voluntários trabalharam. Ao todo, segundo o mapa do percurso, havia 8 pontos de abastecimento com água e outros 5 com geis ou outro tipo de alimentos, o que é mais do que suficiente, especialmente considerando que quem por lá estava sabia bem o que fazia. Acreditem, faz muita diferença uma pequena ‘aula’ prévia, que certamente a organização de Belfast lhes deu.

Os voluntários são a alma das provas. Em Belfast isso foi bem evidente

Voltando à prova e ao seu percurso, como dissemos antes, não é dos mais interessantes, pois leva-nos a áreas residenciais menos bonitas, mas que em contra-partida nos dão sempre alguém na beira da estrada a apoiar. E isso, muito sinceramente, faz compensar tudo. O perfil da prova é algo acidentado, com alguns sobe e desce nos primeiros 20/25 quilómetros, antes de uma subida pronunciada pelos 27, que vai dos 15m aos 60m. A parte boa disso é que, dali em diante, é (quase) sempre a descer. Não é um percurso muito difícil, mas consegue sentir-se bem nas pernas. Especialmente nas de quem tinha feito uma maratona em Londres na semana anterior em 2:58:22.

Em Belfast, surpreendentemente, as pernas responderam muito bem. Os primeiros quilómetros ainda foram algo duros, com a sensação de que iria ser uma longa jornada, mas a pouco e pouco tudo foi mudando. A ponto de, depois de termos andado sempre ali pelos 4’40/km, nos últimos 10 quilómetros termos sido capazes de baixar o ritmo para algo próximo dos 4’15/km, aquele ritmo sempre respeitável para quem quer correr um sub 3:00.

O percurso e elevação (aquela subida não é tão assustador assim: vai dos 20m aos 60m de altitude)
A arte de pagar bem

Normalmente usamos estas provas para tentar encontrar ‘hidden gems’ que paguem bem aos atletas rápidos para, depois, as recomendar por cá. Belfast é uma daquelas que vale muito a pena recomendar, porque paga muitíssimo bem. Só tem um problema: não é desconhecida. Toda a gente na região sabe dos prize money e, por isso, o nível é bem alto (mesmo que o tempo dos vencedores tenha sido modesto: 2:16:24 e 2:38:01).

Por exemplo, 13 mulheres correram abaixo das 3 horas. Nos homens, 27 fizeram sub 2:40, 84 sub 2:50 e 233 sub 3:00. Parece números modestos, mas para uma prova desta dimensão e esta importância… é incrível!

Nota final para o número de atletas presentes. Cerca de 5.200 terminaram a maratona, aos quais se juntaram mais 15 mil que competiram na estafeta (foram 3 mil equipas de 5 corredores cada). Uma boa solução para ter um evento repleto e, por outro lado, garantir uma boa moldura humana ao longo do percurso. Não seria uma má ideia a desenvolver por cá, até porque faria mais gente envolver-se nos eventos sem ter de estar a desafiar-se numa distância tão brutal como a maratona.

Gostámos imenso do ambiente que se viveu na cidade
E como foi a recolha do kit?

É estranho deixarmos apenas para o final este ponto, mas de certa forma já é algo ao qual não damos tanta importância quanto no passado. Se for numa grande maratona, aí sim. Aqui, numa prova mais pequena, só queremos ter algo rápido, sem grandes complicações. E foi isso que Belfast nos deu.

A entrega do kit fez-se no Waterfront Hall, um centro de exposições que tinha precisamente o básico. Uma área para recolha dos dorsais bastante rápida e uma outra com algumas (poucas) zonas de exposição.

No kit vinha o dorsal da prova e várias ofertas, incluindo uma bem interessante camisola de manga comprida com zip, que dará certamente jeito para utilizar quando a temperatura baixar. Além disso, recebemos uma barrinha, um gel, uma bebida energética e também uma embalagem de papas de aveia. Nada de especial, mas detalhes interessantes que mostram um cuidado pelo corredor que se agradece.

Recomendamos?

Se querem ter uma experiência inesperada (agora já deixará de sê-lo, porque estão avisados…), correr numa capital com o seu quê de histórico e não se importam de correr num percurso aborrecido, mas com um ambiente incrível… why not?

Dicas finais

Como chegar

Chegar a Belfast obriga a uma pequena ginástica, pois não há voos diretos. Há duas soluções: ou apanhar voo com escala ou, então, seguir até Dublin e da capital irlandesa apanhar um autocarro até Belfast. Nós optámos por esta último opção e não nos arrependemos. Voámos no sábado logo às 7 da manhã, chegámos às 10 a Dublin e uma hora depois o autocarro para Belfast. Duas horas depois, numa viagem relativamente tranquila, estávamos prontos a levantar o dorsal e seguir para o nosso descanso. No regresso, na segunda-feira, a mesma receita: autocarro de Belfast até ao aeroporto de Dublin e voo direto para Lisboa no final do dia. Ambos os voos na TAP.

Onde ficar

Este é o grande problema de Belfast. E, na verdade, de várias cidades britânicas. Até há hotéis, mas os preços são um verdadeiro absurdo. Ficar no centro chega a ser proibitivo e, por isso, acabámos por ficar um pouco mais para Sul. E, tal como a viagem, não nos arrependemos. Escolhemos um hotel a uns 2 quilómetros da City Hall (onde se apanhava o autocarro), o Malone Hotel, que para nossa sorte acabou por nos atribuir um dos apartamentos que tem uns metros mais abaixo do complexo principal. Uma belíssima escolha. Pena o preço bem salgado…

O que comer e onde

O alojamento é caro. A comida… também. No sábado, antes da maratona, fomos a um italiano (supostamente) da moda e acabámos a pagar quase 30 euros por uma pizza e um pão de alho com uma qualidade que, na melhor das hipóteses, vale 5 em 10. Nico’s Pizzeria. Podem evitar.

No domingo, aí sim, escolhemos bem. Começámos o nosso recovery no Maggie May’s, um tradicional restaurante que serve pequeno almoço ao longo de todo o dia. Eram 14 horas, mas não podíamos passar a oportunidade de provar o tradicional (e altamente calórico) Full Fry. Nem vamos descrever o que tem… mas vale a pena!

Depois, ao jantar, após termos aproveitado uma Guinness de borla (por termos corrido a maratona), acabámos no The Morning Star Bar & Restaurant a comer um Irish Stew. Outra belíssima escolha!

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