Num ano marcado por alguns recordes mundiais de deixar todos de boca aberta – nos últimos sete dias foram 3! -, a holandesa Femke Broeders-Bol tem sido uma das agradáveis surpresas da temporada. Não que se duvidasse do seu talento, mas pela forma extremamente rápida como se adaptou aos 800 metros, a ponto de, logo na sua primeira época nessa distância, ter já entrado no top-10 histórico (com os 1:54.71 de Zurique).
Esta semana, precisamente após essa prova na Suíça, onde ficou em 2.º atrás da incontornável Audrey Werro, Broeders-Bol levantou o véu quanto a alguns detalhes da sua preparação, mas também partilhou a forma ultra tranquila com que vai enfrentando esta nova era na qual não é a favorita a ganhar – este ano apenas venceu no Meeting indoor de Metz e nos FBK Games.
E quanto àquele jeito quase sem esforço de correr na pista… a holandesa diz que nem tudo é o que parece! “Não é tão fácil [como aparenta], é mesmo muito duro. Quais são as principais diferenças? Acho que muito mais volume. Faço o dobro ou o triplo dos quilómetros por semana em comparação com o que fazia antes, especialmente quando me lesionei e não podia fazer velocidade, pelo que também fiz muitas sessões de bicicleta, e o volume é muito maior. E acho que os treinos de lactato são muito diferentes. Faço muito menos velocidade pura, mais resistência à velocidade, séries longas de velocidade e, sim, os treinos de lactato têm mais repetições e com menos intervalo”.

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“Por exemplo, antes talvez tivesse até 40 minutos de descanso no máximo nos treinos de 400 metros e agora tenho muita sorte se tiver 12 minutos! No outro dia disse ao meu marido: ‘Olha, hoje tenho 10 minutos de intervalo’, e ele respondeu: ‘Fem, estás mesmo a transformar-te numa atleta de 800!’ Porque se dissesses ‘só 10’ há meio ano, dirias: ‘Apenas 10?!’. Por isso acho que é mais a questão de menos descanso, recuperação mais rápida, e tive de aprender a treinar no limiar, a trabalhar a resistência. Ontem disse a alguém: nos 400, sempre que trabalhávamos a resistência eu entrava mais em esforço láctico porque gosto de puxar ao máximo todos os dias, mas quando precisas de trabalhar a resistência pura não deves acumular lactato. Por isso houve aqui uma verdadeira mudança de mentalidade, também para aprender a trabalhar a resistência da forma correta.”
Já abaixo dos 1:55, Broeders-Bol assume que ainda tem muito a melhor. “Como disse, a minha resistência é tão má para os 800! Corro a 5:30/km no meu treino longo e o meu ritmo de limiar é de cerca de 4:20/km num dia bom, por isso é muito lento. Sei que é algo a que simplesmente tenho de dar tempo e tenho de meter volume nas pernas, por isso sabemos que este é um processo de vários anos até melhorar e conseguir ter uma base melhor. E, quanto ao resto, acho que ainda há imensas questões táticas que posso aprender, como gerir o esforço. Estou a começar a sentir-me bem aos 500 metros, mas no início da época, aos 400, eu pensava: ‘Uau, ainda falta outra volta!’. Portanto, acho que ainda há muitas coisas que posso aprender nas corridas, no treino, em praticamente tudo. Há realmente margem de progressão lá dentro.”
Uma margem de progressão que, para o treinador da holandesa… não tem limites. “O meu treinador disse-me [antes de Zurique]: ‘Neste momento já não sei onde está o teu teto máximo, por isso tenta ir para a pista hoje, sair rápido porque foi isso que funcionou bastante bem em Lausana, e depois aguenta-te o melhor que puderes, fazendo a tua própria corrida.'”. Em Zurique funcionou, a ponto de ter estado pela primeira vez na frente de Werro, antes de ser superada na entrada da última curva.
E quanto ao futuro? Veremos Bol dar um outro salto na distância? “Não mais longe do que os 800 metros! As pessoas perguntam ‘Quando é que vais para os 1500?’, nunca! Mas, no meu primeiro ano, 1:54… Sim, é fantástico estar pronta, a apenas um segundo da Audrey, a melhor do mundo neste momento. Por isso acho que estou apenas a divertir-me, a tentar ficar mais forte e a aprender mais a cada corrida.”
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