Nem sempre o número diz tudo, mas neste caso é efetivamente um bom cartão de visita para apresentar a Maratona de Varsóvia. O facto de ir para a sua 48.ª edição, e agora fazer parte como membro fundador das European Marathon Classics, diz qualquer coisa sobre a qualidade da prova e organizativa dos polacos. Afinal de contas, quantas podem dizer que têm já 48 edições e que estão, inclusivamente, nas 20 maratonas mais antigas da Europa? Isso diz muito. Já o resto, na verdade, confirma-se na estrada.
Não é uma prova de topo europeu, se calhar nem procura sê-lo, porque isso talvez desvirtuasse o toque algo pessoal com que se aborda todo o evento, mas é uma prova que vale bem a viagem. Aliás, por falar em viagem, se a prova não convencesse, visitar uma cidade como Varsóvia é razão mais do que suficiente para entrar no avião e, no último domingo de setembro, partir à aventura dos 42 quilómetros.
| Percurso | Citadino, um pouco ondulado |
| Logística | 9/10 |
| Ambiente | 8/10 |
| Como entrar | Inscrição normal |
| Preços | PLN 300 (69 euros) |
| Data em 2027 | 26 de setembro |
| Bengaleiro | Sim |
| Blocos de partida | Sim |
| T-shirt gratuita | Não (pode ser adquirida por 26€) |
| Balneários | Não |
| Potencial para recorde pessoal | Sim, mas… |
| Distâncias adicionais | 10 quilómetros |
Feita esta primeira introdução com base nestes dados é possível ter já uma pequena radiografia do que a prova polaca é e oferece.
Começando pelo início da aventura: o levantamento do kit. E aqui entra, provavelmente, um dos pontos que a organização terá de repensar numa eventual lógica de crescimento. O espaço escolhido, uma tenda em frente ao Palácio da Cultura e Ciência, por mais central que seja em relação à prova, parece-nos algo curto para uma prova que quer ser uma referência. Não só pelo espaço em si, mas também pela aparência que passa para o mundo exterior.
Praticamente todas as feiras de provas se realizam em grandes espaços, normalmente em centros de exposições ou congressos, e esse deverá ser um passo a tomar em busca desse tal maior reconhecimento internacional. Não, não estraga a experiência, não lhe tira qualquer brilho, mas como dissemos acima, as aparências também contam…
E por falar em aparências, o kit da prova não é brilhante, mas acaba por dar mais do que aquilo que normalmente agora vamos encontrando. Na feira em si, já passamos um pouco aquela fase em que devoramos o espaço de fio a pavio, mas uma visita muito rápida permitiu-nos perceber que tinha ali tudo o necessário para umas compras de última hora para a prova ou, então, para um pequeno capricho de olho no futuro. Sim porque usar coisas novas no dia da prova… não!

O dia da prova
No domingo, horas antes da partida (9:00), já toda a estrutura estava mais do que preparava para receber os mais de 10 mil corredores presentes. Ter uma experiência de quase meio século a organizar esta prova de forma ininterrupta permite ter todos os processos quase automatizados e Varsóvia mostrou-o. O processo de entrega o bengaleiro ou o acesso às caixas de partida foram praticamente perfeitos.
Para lá da boa organização e fluidez como o procedimento pré-prova aconteceu, o ponto de partida também merece uma referência. Uma avenida bem larga, que permitia agrupar sem problemas os milhares de corredores. Algo que vai sendo cada vez mais raro, quando provas procuram crescer para lá dos próprios limites e não conseguem entregar um bom produto. Em Varsóvia não há disso.
Às 9 horas em ponto, veio o tiro de partida. Sem empurrões, sem atropelos, só com entusiasmo. Os primeiros metros foram feitos para encontrar o ritmo e, curiosamente, não se viram aqueles habituais doidos de primeiros instantes que saem à morte à procura de encontrar o homem da marreta uns (poucos) quilómetros depois.

Uma primeira parte chata, mas com apoio… inesperado
Varsóvia é uma cidade até relativamente grande, mas desenhar um percurso apenas no centro traria dois desafios: ou seria a duas voltas ou, então, a prova seria um enorme carrossel para completar os quilómetros na parte mais histórica. Por isso, para manter um registo o mais rápido possível, o traçado faz os primeiros largos quilómetros – dos 3 aos 17 – do outro lado do Rio Vístula, na zona de Praga (nada a ver com a capital checa), antes de voltar ao coração da capital para terminar novamente junto do Palácio da Cultura e Ciência.
Essa primeira parte é, convenhamos, algo chata. Tem algumas voltas e voltinhas, mas também merece um ponto positivo por ser feita em ruas bem largas, que permitem que os corredores progridam sem qualquer problema. Outro ponto positivo foi o apoio encontrado. Ainda que seja numa parte algo mais afastada das áreas residenciais, com dupla passagem junto do Estádio Nacional de Varsóvia, até fomos encontrando alguns pontos de apoio popular, que nos ajudavam a encarar os quilómetros com outro entusiasmo.

Abastecimentos revelam sempre algo
É apenas um detalhe numa organização, um de vários, mas os abastecimentos normalmente acabam por fazer pender a balança para um dos lados na hora de avaliar uma boa experiência. Em Berlim, por exemplo, praticamente toda a gente se queixa e muitos acabam por sair insatisfeitos por isso mesmo. Em Varsóvia, ainda que numa dimensão bem inferior, tudo flui na perfeição.
Cada um dos postos estava bem colocado, sempre em espaços amplos – não estão imediatamente antes ou depois de curvas -, e tinham pelo menos 4 mesas com água com fartura. Além dos pontos com água, a cada 2.5 quilómetros, de 5 em 5 havia também abastecimento com isotónico, fruta ou geis. E tudo fluiu de forma perfeita. Confessamos que há muito não víamos uma prova tão impecável nesse particular!

Uma viagem ao coração da capital
Já de volta ao outro lado do Rio Vístula, depois de cruzarmos a Poniatowski Bridge com uma vista deslumbrante para o coração da cidade de Varsóvia, entramos numa segunda metade da prova que, estando numa zona mais povoada, nos permite ter um pouco mais de apoio – ele também existia do outro lado, mas talvez com menor entusiasmo.
E, acima tudo, percorrer algumas das ruas mais emblemáticas da cidade. Aqui pode dar-se o caso de estarmos demasiado embrenhados na prova para desfrutar, mas quem conseguir poderá observar com interesse alguns pontos icónicos, como a Krakowskie Przedmieście (a rota real histórico de Varsóvia) ou a Nowy Świat, e passar em frente do Presidental Palace ou do National Museum.
Aqui já dentro do centro histórico da capital polaca, um dos mais simbólicos do passado recente deste lado da Europa. Destruído praticamente na sua totalidade após a Segunda Guerra Mundial (apenas 15% sobreviveu…), foi reconstruido do zero reproduzindo muito fielmente o cenário que se via antes dos atos que o destruíram. É uma bem interessante viagem na história, que nos lembra dos esforços e perdas que muitos povos passaram para cá estarmos neste dia a desfrutar do mundo.

Uma pequena subida, mas constante
O percurso desta Maratona de Varsóvia não é dos mais difíceis da Europa, mas também não é tão plano quanto a organização tenta vender. A prova começa e acaba no mesmo ponto e isso dá um ganho de elevação global de zero e o perfil apresentado até deixa a entender que a dificuldade seria reduzida, mas no dia da verdade, lá na estrada, o cenário é algo distinto.
Os primeiros 16 quilómetros até são bastante favoráveis, com uma descida gradual até ao ponto mais baixo da prova. O problema é que, para voltar ao ponto de meta (localizado na zona de partida), é preciso… subir. Dos 16 em diante há pequenas subidas que não deixam grande mossa. Ao contrário daquela que encontramos dos 38 até à meta. Não é pronunciada, mas sente-se. Especialmente numas pernas cansadas como aqueles que normalmente nos acompanham neste ponto da prova.
Ainda assim, toda essa dor acaba por ser mascarada assim que vamos vendo os quilómetros passar e, também, à passagem dos vários pontos de apoio que se juntam nesta fase final.
A 800 metros da meta, depois de percorrer a Krakowskie Przedmieście, voltamos à direita e vemos lá ao fundo, bem longe, o pórtico de meta. É um derradeiro esforço duro, que se torna ainda mais duro por percebermos que falta tanto, mas nesse momento, além da adrenalina, o apoio popular guia-nos até ao fim.

E depois da meta?
Com uma zona de meta localizada numa avenida ampla e ruas adjacentes também bem largas, a organização tinha tudo ao seu dispor para que os momentos posteriores à conquista de mais uma maratona fossem sem grandes confusões. Nós sabemos que muitos corredores não gostam, mas antes de recolher a medalha e águas há uma longa caminhada que as pernas virão a agradecer.
- Medalha de prova;
- Garrafa de água;
- Bebida isotónica;
- Banana;
Antes de tudo, logo no final da reta da meta, está o stand das European Marathon Classics, onde os finishers do circuito podiam recolher a sua medalha e, quem ainda estava a começar ou a meio, podia sempre tirar uma foto para assinalar o momento.
Recomendamos?
Sim. Se tivéssemos de pesar os fatores que nos levam a esta resposta, diríamos que 40% se deve à prova em si e 60% à cidade. E isto não é uma crítica à qualidade da prova.

Dicas finais
Como chegar
Varsóvia tem algumas ligações aéreas diretas, ainda que não de forma diária. Pelo menos não nesta fase. No nosso caso, conseguimos ter dois voos diretos: a ida na TAP, ao final da manhã de sexta-feira; a volta na Wizz Air, ao início da noite de segunda-feira. Chegados à capital polaca, a nossa recomendação passa por apanhar o comboio, que por menos 1 euro (4 złoty) nos deixa junto da zona da prova. Podem, em alternativa, escolher um táxi, mas aí ficam à mercê do trânsito da cidade, que por vezes pode ser algo caótico.

Onde ficar
A prova começa e termina junto do Palácio da Cultura e Ciência, pelo que é uma boa opção procurar um hotel nas imediações. Há várias opções e, neste particular, recomendamos o Hotel Metropol, uma unidade 3 estrelas que tem o necessário para tornar a estadia de um maratonista o mais agradável possível. Por estar ‘dentro’ da organização da prova, oferece até horário adaptado no pequeno almoço para quem vai correr no domingo.
O que comer e onde
Varsóvia é uma cidade onde se come muito bem. E barato, diríamos. Infelizmente na nossa estadia não tivemos oportunidade para provar todas as iguarias que gostávamos de ter experimentado, mas as que o fizemos… corresponderam à expectativa.
Começámos o dia de forma inversa ao habitual por estas bandas: em vez de salgado, fomos a um doce. No caso o poderoso Pączki, um donut feito num estilo próprio, com uma massa algo mais densa e rica, semelhante à do brioche, com um recheio bem farto.
Se quiserem ter a experiência polaca absoluta, podem tomar todas as vossas refeições num bar mleczny, o chamado ‘bar de leite’. É um conceito muito próprio da Polónia, nascido pela mão estatual no século XIX e que vem sobrevivendo, sempre com apoio do estado. A ideia é oferecer refeições económicas e acessíveis para os trabalhadores, funcionando como um refeitório público. Lá podem encontrar praticamente tudo o que os polacos normalmente comem. E com um toque caseiro na confeção.
Por lá podem encontrar outra das joias da coroa da gastronomia polaca – talvez a maior… -: os pierogi. Não são um prato per si, mas fazem bem uma refeição e não são mais do que pasteis fritos ou fervidos em água, com vários tipos de recheio. Desde os tradicionais com batata, carne moída, queijo ou frutas, há opções para todos os gostos. No nosso caso, provamos num espaço bem famoso com várias casas pela cidade: o Zapiecek.


0 Comments on “Maratona de Varsóvia: um clássico escondido que merece a visita”