O que têm em comum o recorde mundial da meia maratona (e os 1:59:41 na maratona) de Yomif Kejelcha, os 2:13:33 de Hawi Feysa em Chicago, os 2:10:53 de Fotyen Tesfay em Barcelona ou os 58:04 de Rodrigue Kwizera na Meia Maratona de Valência? À primeira vista a única coisa que os une é o facto de serem tempos históricos, mas há um elo espanhol entre todas. As marca de nutrição Santamadre.
Já aqui falámos dela, a propósito do incrível plano nutricional de Yomif Kejelcha para a estreia na maratona em Londres, mas essa parece ter sido apenas uma primeira amostra daquilo que a marca espanhola tem andado a ‘cozinhar’. No centro de tudo está um novo produto, que há poucos meses começou a ganhar espaço mediático no meio: o gel Lactate 60.
Nas palavras da marca, este produto revolucionário “resulta de meses de investigação sobre o papel do lactato na performance, centenas de horas de testes com atletas de elite e da estratégia nutricional desenhada em conjunto com Yomif Kejelcha na sua tentativa de quebrar a barreira das duas horas na maratona.” A sua composição é simples: 40 g de hidratos de carbono numa proporção 1:1 com 60 milimoles de lactato. “Não substitui os hidratos de carbono: complementa-os”, alerta a marca.
“Enquanto a glicose e a frutose são absorvidas através dos seus próprios transportadores, o lactato utiliza uma via independente por intermédio dos MCT (Monocarboxylate Transporters / transportadores de monocarboxilato). Isto abre uma rota metabólica adicional dentro da mesma estratégia de abastecimento (fueling). Uma vez absorvido, o lactato atua como fonte de energia, mas serve igualmente de sinal fisiológico, alertando o organismo para o aumento da intensidade do esforço. Este processo ajuda a desencadear as respostas naturais do corpo associadas ao rendimento, ativando os mecanismos responsáveis pela adaptação ao exercício de alta intensidade. É por isso que o LACTATE 60 foi concebido não só para fornecer energia, mas também para ajudar o organismo a continuar a gerir e a rentabilizar essa energia à medida que a intensidade sobe.“
A explicação acima ajuda a entender aquilo que este produto pode dar. Não só à elite que mencionámos no início do texto – e a tantos outros, como Tadese Takele (2.º na Maratona de Chicago e vencedor da Maratona de Tóquio), Abel Chelangat (vencedor da Maratona de Barcelona) ou ainda Thierry Ndikumwenayo (58:09 na Meia Maratona de Valência) -, mas também a atletas amadores. Ainda que com alguns pontos de atenção.
“Da mesma forma que necessitamos de um período de adaptação para uma maior absorção de hidratos de carbono (CHO), temos também de fazer uma progressão na ingestão de milimoles de lactato. Na Santamadre, não aplicamos estratégias exclusivamente assentes no lactato em provas com duração superior a 3 a 4 horas. Quando se ultrapassa esse volume horário, reservamos o lactato para as últimas 3 horas de corrida. Importa também acrescentar que utilizamos o rácio 1:1, uma proporção com a qual trabalhamos desde o início e sobre a qual temos as melhores evidências de que não causa qualquer tipo de problemas gastrointestinais.”
E como deve, por exemplo, ser integrado o programa de nutrição da Santamadre para uma maratona abaixo das 3 horas? A própria marca explica-nos:
Km 5 – Lactate OFF CAF
Km 10 – Lactate 100 CAF
Km 20 – Lactate OFF CAF
Km 25 – Reset Gel
Km 32 – Lactate 100 CAF
Totais: 202 gramas de hidratos de carbono; 240 mmol de lactato; 930 kcal
Quando questionamos sobre eventuais combinações com outros produtos, nomeadamente Nomio e o Bicarb da Maurten, a marca não quis fazer comentários, mas aí fizemos o teste por nós próprios. Integramos ambos os produtos em duas maratonas e não tivemos qualquer desconforto intestinal.
E quanto pode ganhar um atleta de nível de sub 3:00 na maratona? Uma estimativa não é possível ser dada, pois depende de muitos fatores, mas a ideia por trás do Lactate 60 passa por dar um melhor final de corrida e a perceção de poder alargar os momentos mais duros da competição. “A ideia é ter uma segunda parte de corrida igual ou mais rápida do que a primeira”, pontua.








A nossa experiência
Testámos o Lactate 60 da Santamadre nas duas maratonas mais recente que fizemos, em Skopje (3:02:58) e Ljubljana (3:09:10). Não fizemos uso exclusivo dos produtos da marca, mas integrámos o Lactate 60 aos 30 quilómetros em ambas e, na mais recente, o Reset Gel, um outro produto com propósitos diferentes, aos 25. Antes disso ingerimos 4 geis da marca que habitualmente usámos (os High Energy da 226ers). No total, ingerimos em média em torno de 273 gramas de hidratos de carbono (combinando as duas marcas).
Do ponto de vista da performance, não sentimos qualquer quebra em termos de energia, algo muito habitual em maratonas, e, em Skopje, fizemos mesmo uma segunda metade 4 minutos mais rápido do que a primeira… apenas uma semana depois de fazermos uma outra maratona em Varsóvia. Pode ter sido placebo. Pode ter sido efeito do gel. Não saberemos sem confirmar com resultados laboratoriais.
O que podemos confirmar é que, ao cabo de 30 quilómetros – e isto é uma opinião pessoal -, a ingestão de um gel mais ácido como o Lactate 60 foi muitíssimo bem-vinda pelo nosso paladar, já um pouco farto daquele toque sempre doce dos geis da 226ers. Naquele momento, a vontade interior é beber alguma coisa com gás – uma Coca Cola, uma Fanta… – e a entrada do Lactate foi algo que se saudou.
Fechamos com aquilo que ‘assusta’ muita gente: o preço. São 5 euros por cada gel. Um valor elevado, é certo, mas que surge justificado nesta primeira fase pelos longos anos de desenvolvimento. E, por outro lado, continuam mesmo assim a ser mais baratos do que alguns produtos da moda no mercado no rácio HC/euros, nomeadamente Maurten.
Um gel da marca sueca, com 25 gramas de hidratos custa 3.4 euros. São 7,35 gramas por cada euro, quando no Lactate 60 da Santamadre obtemos 8,60 gramas por cada euro. E com a adição do lactato…

