Vamos ser muito diretos antes de passarmos à análise ponto a ponto. As ASICS Superblast 3 têm um grande problema. Não de performance, não um problema estrutural. Mas sim um problema de valor. Não de valor no sentido de capacidade para algo, mas de preço.
Porque, anos volvidos desde o impacto brutal que tiveram no mercado, agora chega a ser algo surreal um modelo deste tipo estar à venda por 220 euros. Especialmente havendo opções em tudo similares bem mais baratas. Na altura, quando as primeiras saíram em 2022, o preço justificava-se pela novidade. Mas agora, quatro anos volvidos, os 220€ mantêm-se, mesmo quando adidas (Hyperboost Edge), Saucony (Endorphin Azura), Puma (Deviate Nitro 4), Hoka (Mach X3) e até a Kiprun (Kipstorm Tempo) têm no mercado modelos em tudo idênticos entre 20 a 80 euros mais baratos! Se a ASICS devia repensar este aspeto? Devia. Sob pena de perder cada vez mais espaço neste segmento.
Passando este preâmbulo que serve já para deixar um dos pontos negativos destas Superblast 3, vamos ao que importa, a nossa análise do que vale este super trainer da marca nipónica. Um modelo que, diga-se em abono da verdade, foi responsável por um antes e um depois no mundo da corrida. Olhando para trás, se as Vaporfly abriram o caminho à febre das placas de fibra de carbono no calçado de corrida, as Superblast 1 foram o arranque em definitivo de uma categoria que conciliava um rendimento similar aos ‘super shoes’ mas sem necessidade de placas.
Quase quatro anos passaram, pelo meio saiu uma segunda versão que não nos passou pela mão, e chegámos agora à terceira. Sem ponto de comparação com a anterior, podemos dizer que as SB3 estão bem mais macias do que as SB1. A espuma, a mesma das MetaSpeed Sky e Edge Tokyo, assim o provoca, tornando a corrida bem diferente da sensação algo firme que tínhamos na primeira versão – e, pelo que lemos, na segunda.
ASICS Superblast 3
* Preço sujeito a alteração. Compra através do link para apoiar o VO2 Máximo.
Especificações técnicas
| Peso | 232 gramas (42 EU) |
| Drop | 8mm (46.5mm – 38.5mm) |
| Uso recomendado | Treinos e provas longas, a ritmo até 4’00/km |
| Preço | 220€ |
| Disponibilidade | disponíveis em 3 esquemas de cores |
Comparação com rivais
| Modelo | Peso* | Drop | Altura (Trás/Frente) | Preço de lançamento |
| ASICS Superblast 3 | 232g | 8mm | 46.5mm / 38.5mm | 220€ |
| ASICS Superblast 2 | 249g | 8mm | 45mm / 37mm | 220€ |
| ASICS Megablast | 224g | 8mm | 45mm / 37mm | 240€ |
| Nike Vomero Plus | 285g | 10mm | 45mm / 35mm | 170€ |
| Saucony Endorphin Azura | 240g | 8mm | 40mm / 32mm | 160€ |
| adidas Hyperboost Edge | 247g | 6mm | 45mm / 39mm | 200€ |
| Puma Deviate Nitro 4 | 245g | 8mm | 38mm / 30mm | 170€ |
| Kiprun Kipstorm Tempo | 232g | 8mm | 45mm / 37mm | 140€ |
*-valores oficiais das marcas
Sensação de corrida
As misturar dois compostos bem distintos na meia sola, a ASICS criou aqui uma sensação bem distinta daquela que os fãs mais fieis da saga estavam habituados. O FF LEAP, o composto estrela das MetaSpeed Tokyo, é fantástico a funcionar em junção com a placa de fibra de carbono, mas sem ela nota-se o quão a espuma se afunda por ser tão macia. É mais leve, e isso ajuda à redução do peso apesar do elevar da altura, é também mais responsiva no papel, mas em corrida perde-se um pouco esse efeito por estar pensada para algo bem diferente. Muito por culpa do que está abaixo dela, na camada mais próxima do solo, a FF BLAST+. Um composto que, em corrida, faz perder um pouco o retorno que a parte de cima podia dar.
E o que representa isso em corrida? As SB3 são responsivas, são divertidas de se correr, respondem bem a variações de ritmo, mas talvez tenham o seu ‘sweet spot’ ali pelos 4’00/km. Mais rápido do que isso parece que a espuma se afunda mais rápido do que é capaz de devolver em energia para a passada seguinte. Já mais lento do que isso, as SB3 comportam-se de forma praticamente perfeita… até determinado ponto. No nosso caso, sentimos que perdem a ‘graça’ ao rodar mais lento do que 5’30/km e até se tornam algo desagradáveis.
E isso leva a outra questão: ao ganhar um pouco mais de altura na meia-sola, especialmente com uma espuma tão mais macia, as SB3 sentem-se algo mais instáveis do que gostaríamos e isso sente-se até mais em ritmos lentos do que a ritmos mais vivos. E até podia ser pior, não tivesse a ASICS tomado a brilhante decisão de colocar uma pequena inserção de maior volume da FF Blast+ na zona do arco, para garantir um pouco mais de firmeza.
No fundo, esta mudança vai agradar a uns, a quem gosta de uma sensação quase de ter um ‘colchão’ debaixo dos pés; e vai desagradar a outros, no caso a quem prefere ter uma sensação mais firme no contacto com o solo. Nós fazemos parte deste último grupo, o que nos leva a não colocar propriamente as SB3 no nosso topo.


O upper
É um dos pontos mais fortes deste modelo, mas não é perfeito. Em termos de conforto, diríamos que são dos melhores modelos que já testámos, com um toe box largo, uma plataforma também larga e um ajuste perfeito na forma como abraça o nosso pé praticamente no imediato. O contorno do calcanhar também está muito bem conseguido, não provocando qualquer tipo de atrito. Já a língua, é igualmente bem acolchoada – no ponto certo -, ficando sempre colocada no sítio certo. No fundo, é um daqueles modelos que encaixa como uma luva logo ao primeiro segundo.
Só que a fórmula da mudança não ficou totalmente perfeita. Em especial pela respirabilidade global. O upper na zona frontal não parece ser tão respirável como se agradeceria, com o ar a aparentar ser dissipado mais na zona da língua do que propriamente à frente.
É mau por um lado, mas muito bom por outro. É que, ao ser menos ‘aberto’, o upper da zona frontal promete ser também bem mais resistente, o que em teoria garantirá umas sapatilhas para aguentar bem mais quilómetros e o uso constante do que umas com um upper algo mais ventilado. Não é algo líquido, mas acreditamos que seja o caso.


O composto de sola
Se vamos dar 220 euros por umas sapatilhas, que a durabilidade da sola seja conforme. Certo? Pois bem, nesse aspeto não temos bem a certeza que será o caso. Se bem que lemos algumas reviews, com testes específicos, a garantirem-nos que a durabilidade da sola é elevada, a verdade é que o nosso teste começou a deixar alguns pontos algo preocupantes com pouco mais de 100 quilómetros.
Quanto à tração, aí não temos nada a apontar. A ASICS parece ter aprendido com os erros da primeira versão (era uma autêntica máquina de patinagem…) e decidiu combinar o seu composto estrela ASICSGRIP (com tração digna do trail) e ainda o AHAR LO, garantindo uma capacidade global de agarre muito interessante, até mesmo em condições de piso molhado.

Valem a pena?
Vai depender muito da carteira de cada um. 220 euros por um modelo que se quer como trainer rápido, capaz de ser um pau para (quase) toda a obra, pode ser visto por alguns como um investimento fácil de fazer. E bem difícil e sem sentido para outros. O facto de estarem bem mais macias torna-as um modelo diferente daquilo que era a primeira versão (a que testámos anteriormente) e diferencia-as por completo das Megablast, que agora são a proposta única da ASICS como super trainers puras.
Se querem um modelo versátil, para fazer rodagens mais ou menos lentas e treinos rápidos (mas não muito rápidos), as Superblast 3 são uma boa opção. Mas se não querem chegar aos 220 euros e tirar praticamente o mesmo efeito, talvez devam olhar para as Saucony Azura, um modelo que segue firme no topo do nosso top de 2026.

ASICS Superblast 3 - análise ponto a ponto
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Amortecimento - 9/109/10
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Conforto - 9.5/109.5/10
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Responsividade - 8.6/108.6/10
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Durabilidade - 8.2/108.2/10
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Tração da sola - 8.9/108.9/10
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Durabilidade da sola - 8.1/108.1/10
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Preço/qualidade - 7.5/107.5/10
Summary
As Superblast 3 estão bem diferentes daquilo que estávamos habituados. No fundo, parecem ser umas Novablast 5… aditivadas. Mas em excesso. Estão demasiado macias para o nosso gosto, o que nos faz perder um pouco aquela sensação de firmeza que tanto gostamos na primeira versão. Continuam a ser versáteis, boas para rolar a bom ritmo, mas parecem ter perdido aquela capacidade para ‘puxar’ umas séries. O que não – até está melhor! – é o conforto. São um bólide de luxo para encaixar o pé que nem uma luva.

