Para lá da batalha pela máxima performance, no mundo do calçado desportivo há também uma verdadeira corrida aos números da balança, no caso para ver quem consegue baixar mais a fasquia. A adidas foi a pioneira a abrir esse jogo com a linhagem Adizero Adios Pro EVO – que começou a partir a louça nas primeiras versões e culminou recentemente nas EVO 3 a bater nos 97 gramas –, tendo-se seguido a Mizuno, com as Hyperwarp 96 de… 96 gramas.
Quem também quis mostrar que sabia jogar esta cartada foi a Joma, que há cerca de um ano colocou no mercado as RS9000 para entrar diretamente nesta disputa do peso pluma. Agora que tivemos oportunidade de testar uma unidade deste modelo, a reação ao tirar da caixa continua a ser impressionante: são escassos 126 gramas. Uma aposta radical no minimalismo competitivo que continua a ser das propostas mais extremas e sem filtros do pelotão.
Apresentando-as de forma clara: não são, de todo, sapatilhas para qualquer corredor nem para qualquer distância. Esqueçam a ideia de um “super shoe” maximalista e altamente protetor para enfrentar os 42 quilómetros de uma maratona. As RS9000 são uma arma pontual, agressiva e sem filtros, desenhada cirurgicamente para ritmos vivos, séries na pista ou no asfalto e distâncias curtas onde cada grama a menos conta no cronómetro.
Joma RS-9000
300€ JOMAPrós
- Peso pluma e feito de engenharia impressionante
- Reatividade explosiva da espuma
- Upper ultra-respirável e sem pontos de atrito
- Tração eficaz da sola em piso seco e húmido
Contras
- Falta de amortecimento para longa distância
- Público-alvo hiper-restrito
- Ausência de furo extra para bloqueio do calcanhar
- Preço elevado para a falta de versatilidade
| Uso Recomendado | Peso | Drop |
|---|---|---|
| Performance, provas até 10k a ritmos fortes | 126 g | 8 mm (29 mm / 21 mm) |
Sensação de corrida
Correr rápido com as RS9000 exige um nível de precisão técnica muito elevado. Mal se entra em ritmos mais vivos – claramente abaixo dos 4:00/km –, a resposta da espuma Light Reactive (composto 100% Pebax) revela-se extremamente explosiva. Nos primeiros metros de aceleração a reatividade é imediata, quase a fazer lembrar a agressividade de umas sapatilhas de pista.
Contudo, essa vivacidade tem um reverso da medalha: não há aqui o amortecimento abundante a que nos habituámos nos modelos de topo da atualidade. Com apenas 29 mm de perfil no calcanhar, o modelo afasta-se por completo da tendência maximalista de opções como as R3000 ou R1000 da própria marca e, claro, de todos os outros que fazem sucesso no mercado da longa distância. Sente-se muito mais o contacto com o piso.
A placa de fibra de carbono segue uma filosofia diferente: é consideravelmente mais flexível do que a maioria das placas do segmento. Não proporciona aquele efeito de “trampolim” tão acentuado ou rígido, optando antes por uma transição mais fluida e orgânica — o que tem a enorme vantagem de ser muito menos agressiva para os gémeos e o tendão de Aquiles do que as placas mais rígidas do mercado. Além disso, por ter um perfil mais baixo e não adornar, é uma sapatilha que se porta surpreendentemente bem em percursos com curvas apertadas ou mudanças bruscas de direção.
Em termos de estabilidade, a margem de erro é mínima. O corte pronunciado na zona medial da sola deixa o pé muito exposto, pelo que corredores com ligeira pronação ou que comecem a perder a postura com o acumular de fadiga vão sentir de imediato a falta de estrutura. É um modelo pensado para atletas leves (abaixo dos 65 kg a 70 kg) e com uma mecânica de passada eficiente e neutra. Quem não andar nesse grupo restrito poderá tirar partido… mas em distâncias muitíssimo curtas.
E falando diretamente disso, apesar da Joma no seu site oficial as projetar para correr maratonas, diríamos que o máximo que se deve arriscar nestas RS9000 são provas de 10 quilómetros. Isto porque o amortecimento nos parece algo curto para o que é pedido acima disso. E nem mesmo o facto de ser um corredor leve (63 kg) fará grande diferença.



O upper
Visualmente, a malha das RS9000 salta logo à vista pelo minimalismo descarado. Em vez de recorrer a tecidos tradicionais densos, a aposta passou por uma grelha sintética quase transparente, entrecruzada por fios mais grossos que dão alguma contenção ao peito do pé. Na estrada, o benefício prático desta escolha é imediato: a respirabilidade é total, o pé nunca sobreaquece e a água ou o suor simplesmente não têm onde ficar retidos.
No contacto com a meia, o comportamento surpreendeu-nos pela positiva. Apesar de ter um aspeto exterior rígido e seco, por dentro não detetámos costuras a morder nem zonas de atrito que causassem desconforto. O corte fica bastante justo à silhueta do pé, como seria de esperar num modelo de cariz puramente competitivo, garantindo que a sapatilha não baila mesmo quando não há plásticos rígidos a segurar a passada.
Onde a experiência revelou algumas falhas foi nos pormenores de acabamento. A secção traseira não tem qualquer armação para fixar o calcanhar, dependendo unicamente de um pequeno reforço almofadado que, embora não magoe o tendão, pede um aperto mais seguro. É aí que sentimos a ausência de um furo extra no topo da furação para travar melhor o tornozelo.
Para complicar esse ajuste, temos uma lingueta tão fina que se dobra facilmente ao puxar pelos atacadores — que, por sua vez, são exageradamente longos para uma sapatilha que se quer o mais despojada possível de peso.
Por fim, fica o aviso para a primeira utilização: a tinta amarela do acabamento interno passa com muita facilidade para o tecido, pelo que convém evitar meias claras nas primeiras sessões.



O composto de sola
A sola apresenta uma abordagem técnica curiosa. O piso em borracha translúcida recorre a um micro-relevo de tração no antepé e surge integrado na própria espuma da meia-sola, uma solução engenhosa para tentar proteger o composto leve de desgaste prematuro.
Em superfícies de asfalto limpo — e até com o piso ligeiramente húmido, ponto onde a marca costumava falhar nos seus modelos de estrada —, a tração provou ser surpreendentemente eficaz, muito por força deste composto em poliuretano com microtacos que agarra bem nos momentos de maior aceleração. A durabilidade geral da meia-sola, contudo, gera naturais reservas pelo toque exposto do Pebax, sendo claramente um modelo construído para render em dias-chave e não para acumular centenas de quilómetros de rodagem.

Veredito
Chegamos ao ponto crítico: o preço e o posicionamento. Colocar uma etiqueta de 300 euros numas sapatilhas de competição é entrar diretamente no terreno dos pesos-pesados do mercado global. Se olharmos puramente para a balança – 126 gramas –, a marca conseguiu um feito de engenharia impressionante. Mas o raio de ação deste modelo continua a ser bastante reduzido.
Apesar de a marca continuar a apontá-la a distâncias maiores na sua comunicação oficial, as suas características geométricas e a escassa proteção estrutural tornam-na inviável para uma maratona para a esmagadora maioria dos corredores. O seu ecossistema natural continuam a ser os 5 km, os 10 km e treinos de séries curtas. Rivais diretas como a Nike Streakfly 2, a adidas Takumi Sen 11 ou a New Balance FuelCell SuperComp Pacer oferecem abordagens semelhantes para distâncias curtas e médias, com preços substancialmente mais contidos e, em alguns casos, maior conforto.
Para quem procura uma ferramenta ultra-radical e exclusiva para voar em distâncias curtas sem carregar um único grama a mais, a experiência é única; para quase tudo o resto, falta-lhe versatilidade para justificar o investimento face à concorrência.





